Bruno Carvalho foi nascer em Faro a 3 de Setembro de 1975, mas Albufeira é que o viu crescer e formar a sua personalidade. Actualmente estuda na Covilhã Língua e Cultura Portuguesas, licenciatura quase concluída.
Este jovem de vinte e sete anos, com pretensões de viver exclusivamente da escrita, acabou de concluir o seu primeiro romance De dia e de noite.
Por que motivos ainda não terminou a sua formação? Porque foi uma decisão tardia. Deixei de estudar aos dezassete para ir à descoberta da vida e do mundo... Também andava um pouco perdido de mim próprio, e senti uma necessidade extrema de me encontrar, conhecer e testar os meus limites... Tal situação deu-se em Genébra quando andava a aspirar os escritórios da Rolex. Perguntei-me nessa altura se era aquele tipo de trabalhos que iria fazer toda a vida... Nesse tempo já tinha trabalhado no restaurante do Zoomarine, na Pizza-Hut, animações em discotecas... Enfim, trabalhar para mim era sinónimo de independência, de liberdade, um poder que não estava disposto a perder depois de conquistado. Ao regressar fiz reposição no Modelo, horas no MacDonalds e ainda fui barman na discoteca Locomia.
Sinto a necessidade de contactar com pessoas diferentes, de as conhecer para tentar perceber como somos. Sempre gostei bastante de socializar e de fazer com que as pessoas vissem em mim um confidente. Mas guardo muito bem segredos, alguns aparecem discretamente naquilo que escrevo...
Na altura tinha uma grande paixão, o Cinema, mas não a coragem suficiente para batalhar por uma carreira nessa área. Insegurança talvez...
Sempre escrevi muito, desde criança. Aborrecia a minha mãe para me contar histórias e depois dizia-lhe que já as conhecia, e obrigava-a a inventar histórias novas. Depois na Escola Primária isso repercutiu-se nas redacções, especialmente as de tema livre. A professora espantava-se onde é que eu ia buscar a imaginação, e tinha por hábito fazer sempre desenhos para ilustrá-las.
Na adolescência escrevia alguma poesia e guiões para filmes, e também cartas de amor. Esmerava-me bastante. Sempre fui um romântico, influenciado talvez pelos romances que lia. Dickens, Wilde, as peças de teatro, Júlio Dinis, Garrett... Os clássicos do século XIX fascinavam-me! Quando regressei aos estudos, teve de ser à noite, houve uma professora, de Português, Fátima, que exerceu sobre mim uma influência imensa. Devo-lhe muito daquilo que sou. Para além do estímulo pessoal, abriu-me as portas da Literatura Contemporânea à qual eu fugia. De Kundera a Kafka o percurso foi imenso, e comecei a pensar de maneira diferente. Apercebi-me nessa época do poder da literatura e das palavras. Depois veio o serviço militar e com ele um contacto maior com Virgílio Ferreira, Agustina Bessa Luis e Frank Ronan.
Actualmente estou apaixonadíssimo pela obra da Lídia Jorge, inclusivamente estou a fazer um trabalho, de Monografia, sobre o Vale da Paixão. Um romance perfeito aos meus olhos, e o meu preferido da autora. Admiro-a bastante. Bastante mesmo.
O que o levou à Covilhã? Chame-me de lírico, se quiser, mas fui atraído pela neve. Mas o curso também foi apelativo. Confesso que tinha pavor de estudar em Lisboa. Pavor de ser assaltado, porque o tinha sido pouco antes. Fiquei traumatizado e pensei, não, eu não vou ser capaz de viver numa cidade onde não sinta segurança. Por vezes tenho vontade de passear sozinho à noite, e se fosse para lá não o faria certamente. Actualmente recuperei desse trauma e consigo imaginar-me a viver na capital. Sinto vontade até. Uma atracção enorme.
Como nasceu De dia e de noite? Nasceu num fim-de-semana há dois anos atrás. Começou por ser um conto para um concurso literário. Fiquei em primeiro lugar, o que me motivou bastante, como deve imaginar, e depois pensei que a ideia poderia ser desenvolvida. E para ser franco estava a gostar bastante das personagens e do enredo. Foi um romance escrito com serenidade, apenas quando tinha vontade de viver aquelas realidades. Aprendi muito com ele, principalmente sobre mim próprio. Fez-me pensar em muitos assuntos, mas admito que o meu maior orgulho está na estrutura, e não na escrita. Superei as expectativas que tinha acerca de mim próprio.
Helena, Mário e Filipe são os narradores. Três narradores, três perspectivas antagónicas de uma mesma situação. Jogos de mentiras e mal entendidos, na ausência de comunicação, interferem na condução dos acontecimentos. O leitor ficará envolvido desde a primeira página na medida em que não existem momentos de pausa na acção. A estrutura está muito bem conseguida fazendo com que o leitor retire as suas próprias conclusões acerca dos personagens e dos seus actos. Helena, Mário e Filipe, um triângulo amoroso contemporâneo que com certeza irá dar que falar...
A linguagem do texto é simples, filosófica e poética com fundamentos científicos do cosmos. Um excelente romance para ser lido na praia, e não só, naturalmente. O espaço é Albufeira. O tempo o Verão de 2002. Temas como o amor, o ciúme, a traição ou o desgosto são banais, mas interferem na razão de qualquer um de nós... Como consequência os actos tornam ténue a linha entre a sanidade e a loucura.
Outros temas são ainda abordados, tais como a carência de nacionalismo, o comodismo, o serviço militar, a liberdade, a vida e o sonho...
Acredita no seu sucesso? O meu instinto diz-me que sim (risos)... Mas isto é apenas o início de uma longa caminhada... Ainda tenho muito para aprender e para viver...