Bruno Carvalho foi nascer em Faro a 3 de Setembro de 1975, mas Albufeira é que o viu crescer e formar a sua personalidade. Actualmente estuda na Covilhã Língua e Cultura Portuguesas, licenciatura quase concluída.
Este jovem de vinte e sete anos, com pretensões de viver exclusivamente da escrita, acabou de concluir o seu primeiro romance De dia e de noite.
Por que motivos ainda não terminou a sua formação?
Porque foi uma decisão tardia. Deixei de estudar aos dezassete para ir à descoberta da vida e do mundo... Também andava um pouco perdido de mim próprio, e senti uma necessidade extrema de me encontrar, conhecer e testar os meus limites... Tal situação deu-se em Genébra quando andava a aspirar os escritórios da Rolex. Perguntei-me nessa altura se era aquele tipo de trabalhos que iria fazer toda a vida... Nesse tempo já tinha trabalhado no restaurante do Zoomarine, na Pizza-Hut, animações em discotecas... Enfim, trabalhar para mim era sinónimo de independência, de liberdade, um poder que não estava disposto a perder depois de conquistado. Ao regressar fiz reposição no Modelo, horas no MacDonalds e ainda fui barman na discoteca Locomia.
Sinto a necessidade de contactar com pessoas diferentes, de as conhecer para tentar perceber como somos. Sempre gostei bastante de socializar e de fazer com que as pessoas vissem em mim um confidente. Mas guardo muito bem segredos, alguns aparecem discretamente naquilo que escrevo...
Na altura tinha uma grande paixão, o Cinema, mas não a coragem suficiente para batalhar por uma carreira nessa área. Insegurança talvez...
Sempre escrevi muito, desde criança. Aborrecia a minha mãe para me contar histórias e depois dizia-lhe que já as conhecia, e obrigava-a a inventar histórias novas. Depois na Escola Primária isso repercutiu-se nas redacções, especialmente as de tema livre. A professora espantava-se onde é que eu ia buscar a imaginação, e tinha por hábito fazer sempre desenhos para ilustrá-las.
Na adolescência escrevia alguma poesia e guiões para filmes, e também cartas de amor. Esmerava-me bastante. Sempre fui um romântico, influenciado talvez pelos romances que lia. Dickens, Wilde, as peças de teatro, Júlio Dinis, Garrett... Os clássicos do século XIX fascinavam-me! Quando regressei aos estudos, teve de ser à noite, houve uma professora, de Português, Fátima, que exerceu sobre mim uma influência imensa. Devo-lhe muito daquilo que sou. Para além do estímulo pessoal, abriu-me as portas da Literatura Contemporânea à qual eu fugia. De Kundera a Kafka o percurso foi imenso, e comecei a pensar de maneira diferente. Apercebi-me nessa época do poder da literatura e das palavras. Depois veio o serviço militar e com ele um contacto maior com Virgílio Ferreira, Agustina Bessa Luis e Frank Ronan.
Actualmente estou apaixonadíssimo pela obra da Lídia Jorge, inclusivamente estou a fazer um trabalho, de Monografia, sobre o Vale da Paixão. Um romance perfeito aos meus olhos, e o meu preferido da autora. Admiro-a bastante. Bastante mesmo.
O que o levou à Covilhã?
Chame-me de lírico, se quiser, mas fui atraído pela neve. Mas o curso também foi apelativo. Confesso que tinha pavor de estudar em Lisboa. Pavor de ser assaltado, porque o tinha sido pouco antes. Fiquei traumatizado e pensei, não, eu não vou ser capaz de viver numa cidade onde não sinta segurança. Por vezes tenho vontade de passear sozinho à noite, e se fosse para lá não o faria certamente. Actualmente recuperei desse trauma e consigo imaginar-me a viver na capital. Sinto vontade até. Uma atracção enorme.
Como nasceu De dia e de noite?
Nasceu num fim-de-semana há dois anos atrás. Começou por ser um conto para um concurso literário. Fiquei em primeiro lugar, o que me motivou bastante, como deve imaginar, e depois pensei que a ideia poderia ser desenvolvida. E para ser franco estava a gostar bastante das personagens e do enredo. Foi um romance escrito com serenidade, apenas quando tinha vontade de viver aquelas realidades. Aprendi muito com ele, principalmente sobre mim próprio. Fez-me pensar em muitos assuntos, mas admito que o meu maior orgulho está na estrutura, e não na escrita. Superei as expectativas que tinha acerca de mim próprio.
Helena, Mário e Filipe são os narradores. Três narradores, três perspectivas antagónicas de uma mesma situação. Jogos de mentiras e mal entendidos, na ausência de comunicação, interferem na condução dos acontecimentos. O leitor ficará envolvido desde a primeira página na medida em que não existem momentos de pausa na acção. A estrutura está muito bem conseguida fazendo com que o leitor retire as suas próprias conclusões acerca dos personagens e dos seus actos. Helena, Mário e Filipe, um triângulo amoroso contemporâneo que com certeza irá dar que falar...
A linguagem do texto é simples, filosófica e poética com fundamentos científicos do cosmos. Um excelente romance para ser lido na praia, e não só, naturalmente. O espaço é Albufeira. O tempo o Verão de 2002. Temas como o amor, o ciúme, a traição ou o desgosto são banais, mas interferem na razão de qualquer um de nós... Como consequência os actos tornam ténue a linha entre a sanidade e a loucura.
Outros temas são ainda abordados, tais como a carência de nacionalismo, o comodismo, o serviço militar, a liberdade, a vida e o sonho...
Acredita no seu sucesso?
O meu instinto diz-me que sim (risos)... Mas isto é apenas o início de uma longa caminhada... Ainda tenho muito para aprender e para viver...
domingo, 29 de junho de 2008
Isabel, a melhor amiga de Catarina
A musa inspiradora para a personagem Isabel, melhor amiga de Catarina, foi a Marisa Cruz. Tive o privilégio de me ter cruzado com a Marisa várias vezes ao longo da vida. A primeira foi inesquecível, pois tinha 17 anos e fiquei embasbacado a olhar para ela. A Marisa tinha ganho nesse ano, 1993, o concurso Miss Portugal, e, juntamente com as damas de honor, foi ao Modelo de Albufeira fazer um desfile com roupas das lojas do centro comercial. A Adelaide Ferreira era a atração musical. No final do evento fomos, eu e um grupo de amigos, falar com a cantora e pedimos que chamasse a Miss Portugal! A Adelaide, simpatiquíssima, atendeu ao nosso pedido e foi buscar-nos a Marisa para a vermos mais de perto e falarmos um pouco com ela! Uau! que linda, pensei! Ela é mesmo linda!
Na época, houve toda aquela polémica dos cabelos não serem dela. Mesmo que não fossem da Marisa, o certo é que tinha um rosto belíssimo e um corpo fantástico, sem necessidade de silicone... Mas isso é discutível e depende dos gostos de cada um.
Hoje
As horas de sono foram breves, a cama está fria e usada. Quase nem descansei, não estou bem, nada bem. Fecho os olhos e só encontro palavras. Se encontrasse uma solução perderia os meus problemas. Não gosto de ficar assim, ausente de uma realidade tangível, entre pensamentos desconexos e abstractos, com fraco conteúdo e pouca razão de ser. Não gosto de pensar intensamente, faz-me mal. As palavras destroem-me e fazem o que sou. Infeliz antagonismo. Infeliz estorvo.
Não sei se existe um pensamento independente da linguagem, ou se a linguagem é o nosso pensamento. Sei que o pensamento e a expressão não são uma só coisa, porque existem milhares de línguas. Não sei quando começámos a falar, nem a sua enigmática origem.
Debato-me se a vida seria simplificada na ausência destes sons mesclados, contariam os actos, as pessoas. Tem dias que desprezo o progresso, de todo o tipo, e ocorre-me a ideia de fugir para o mato e lá habitar numa pequena cabana, ou gruta, semeando milho e alimentando-me de raízes. Mas não sou capaz., é como um vício, sabemos que nos faz mal e mesmo assim continuamos sem deixar de consumi-lo, ambicionando cada vez mais e mais, e sem saber bem porquê, ou para quê. É doentio e absurdamente vazio, perco a crença em mim e já nem sei o que sou, ou no que me fiz. No que poderia ser.
Sei a justificação deste meu abandono, não a quero aceitar. Sinto um vínculo no meu peito, e incomoda-me. O medo comprime-me e não tenho alento para erigir o que resta de mim. Dramaticamente. Queria olhar de novo para o reflexo no espelho e sorrir, esboçar um simples sorriso. A angústia inexorável em perder-me, desilude-me. Uma vez mais repito que não gosto de estar assim, não é este o meu conceito de existir. Nunca foi.
De manhã, vesti-me sem atenção e corri veloz atravessando a cidade de uma ponta à outra. Encontrei-a destruída, cheia de buracos, pó, tornando o ar irrespirável. É como se estivesse a decorrer uma operação, cruelmente aberta e destruída. Não gostei.
Um rapaz caiu com a motorizada à minha frente, e numa explosão de indolência e indiferença não soube como reagir. Não consegui parar e prestar-lhe o meu importantíssimo auxílio naquela trágica situação. Algo me impediu de abrandar a velocidade. E continuei a fugir, a fugir, a fugir, até um lugar. Um lugar a tocar o Mar.
Olha para a paisagem... Somos tão pequenos neste mundo. Só quando andei pela primeira vez de avião tive noção da nossa insignificância. Lá de cima não existe distinção, somos todos iguais, constantemente em movimento e atarefados... Ao mesmo tempo é como se despertasse para outra realidade, e visse as coisas como elas realmente são! Mário falou como um budista iluminado, em entender o mundo como ele de facto é. A nossa insignificância na grandiosidade universal. Parece um pensamento destituído de grande interesse, porém a vida é um mistério e até o desvendar não penso conseguir ver as coisas como elas são.
As religiões abordam a fantasia de um modo natural, falam de um Deus criador, um Deus falador e pensante que através da Palavra criou a matéria. Primeiro tivemos o signo e como consequência o objecto. É como se já existissem antes de serem criadas, uma árvore, uma estrela, uma lagoa, uma mulher... E isso não consigo entender, faz-me confusão pensar que fomos criados nestas condições. Faz-me confusão venerar um Deus que me criou à sua imagem sem questionar a sua existência. Faz-me confusão venerar um Deus que para mim não é o Deus.
Perturba-me pensar na possibilidade de existir uma força superior aos deuses, criados pelo Homem. Talvez a fusão de certos elementos, ou gases, surgidos do vazio, superior a palavras ou imagens... Mas não sei.
No momento em que o Mário me mostrou aquele lugar elevado, próximo de um farol, a tocar o Mar, só quis abraçá-lo e pensar em como o amava. Amo o seu carinho pelo milagre da vida, por pequenos pormenores que nos escapam no dia-a-dia. Ele lembra-mos, e eu gosto. Gosto do encantamento que sinto por caminhar ao seu lado, por o ouvir falar ininterruptamente sobre a evolução da espécie humana e a nossa intrigante existência. Gosto de estar ao pé dele.
Quando olhas para o céu o que vês? Perguntou-me nessa noite. Na mesma noite em que me ofereceu o Vespertine da Björk.
Vejo o céu, as estrelas... algumas nuvens... Hoje não há Lua... Respondi ingenuamente sem entender o que ele pretendia de mim, provocando uma reacção brusca.
Por acaso até há! Ela anda por aí, algures, nós é que não a conseguimos ver! A luminosidade é apenas aparente, apesar do destaque na imensa escuridão do céu, numa noite de Lua cheia, é o Sol que a protege e ilumina. Casaram-se há muitos anos, mas de vez em quando discutem, como todos os casais modernos.
O Mário faz-me rir imensas vezes. Está provado cientificamente que nos sentimos atraídos por pessoas que nos façam rir. E rir faz-nos bem, altera a nosso batimento cardíaco, a pressão sanguínea e a actividade cerebral.
Mas só consegues ver isso? Olha outra vez! Olha para além das nuvens, das estrelas!... Espera! Faz antes assim, fecha os olhos e imagina todo o sistema solar. Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Úrano, Neptuno, Plutão...
Alheei-me de tudo e visualizei a nossa galáxia. É esquisito... Não sei explicar... Disse após alguns instantes, elevando as mãos à cabeça. Estás a assustar-me!
O Mário começou por explicar-me que o Universo começou do nada, com o Big Bang. Era uma bola de fogo, quente e densa, que deu origem ao tempo e ao espaço há cerca de doze a quinze mil milhões de anos. Era o Ovo Cósmico com um raio de apenas cento e trinta milhões de quilómetros. A partir desse primeiro instante o Universo tem-se estendido como um longo tapete bordado de estrelas e galáxias.
Nos confins do espaço estão as estrelas primogénitas que nasceram pouco depois da primeira manifestação do Universo. É lá, a biliões de anos luz, que está o nosso passado.
O Mário fez-me pensar sobre o meu lugar no meio de tudo isto. Esta enorme grandiosidade de espaço e matéria na qual eu sou apenas invisível. Perturbou-me. Perturbou-me pensar na questão do fim do Universo. Se se expande é porque tem um fim, e eu não sei como será esse fim. É como se o Universo estivesse dentro de algo eternamente vago e estéril, e questiono-me sobre a existência de mais ovos cósmicos no interior deste enorme vazio. Questiono-me sobre os limites do tempo e da vida. Questiono-me sobre o meu amor pelo Mário.
Nessa noite, escura e abafada, beijei-lhe os lábios rosados numa meiguice paciente, e receei o dia de hoje. Olhei para ele e como numa brincadeira de crianças tapei os seus olhos. O que estás a ver agora? Hesitou durante algum tempo e depois num tom quente e calmo... Já te tinha dito o quanto gosto da tua voz? Fala para mim... Diz-me o que pensas... Deixa-me ouvir a tua alma... Diz-me palavras bonitas...
Desci as minhas mãos até às suas e permanecemos de olhos fechados enquanto entoava melodias desconhecidas, evacuadas improvisadamente ao ritmo de energias mútuas que ao se fundirem numa só fizeram com que sentisse o enamoramento na minha voz. Sorri.
Senti que deixávamos o chão elevados no espaço. Flutuávamos em busca do fim do Universo sem entender o princípio do que aparentemente tem, ou não, um fim. Sem entender o nada ou o vazio.
Descemos umas escadas de madeira até à praia e ficámos deitados na areia de frente para o Mar. Nesses dias acreditava no futuro, sem dúvidas. Era meu, havia perscrutado na minha alma sem quaisquer obstáculos, e não colocava a hipótese de o perder. Havia nascido para mim, e eu para ele. Uma ruptura soava-me a uma impossibilidade cósmica.
Éramos gémeos nas mais pequenas coisas. Num sorriso, num olhar, num simples gesto de amizade. Éramos gémeos no sentir da vida, no caminhar na rua num dia de chuva, num contacto de pele permanente. Num saborear um chá com leite, e trocar um olhar cúmplice quase mágico por entre uma mordidela numa fatia de bolo caseiro, daqueles simples só com ovos, farinha e muito açúcar.
A noção da impossibilidade de um simples beijo trocado publicamente era esquecida nesses curtos instantes. Gostaríamos de poder esticar esses segundos de ignorância e vivê-los num tempo incerto.
Éramos gémeos no desejo de habitar num mundo diferente, com outras leis, outros mandamentos. Queríamos que a vida fosse mais simples, sem tantas expectativas. Vivíamos presos a uma sociedade que lamentávamos. Vivíamos presos numa apregoada liberdade. Liberdade? Qual Liberdade? Como sorriamos ironicamente ao pronunciá-la e assim mesmo nada fazíamos.
Éramos gémeos nas fraquezas, tão diminuídas quando estávamos juntos, quando ocasionalmente uma mão tocava na outra, numa mesma angústia, como a de sabermos que nunca poderíamos partilhar a mesma escova de dentes.
Aguardava sempre impacientemente para estar na presença do Mário. Os nossos encontros eram num pequeno jardinzinho situado no Largo Jacinto d’Ayet. No centro um sacerdote de bronze, Beato Vicente, em chamas, erguendo um crucifixo. Em criança não entendia porquê, mas mais tarde descobri que fora queimado em Nagasaqui, no Japão, enquanto pregava a Fé de Cristo, no século XVII. Preferiu morrer a abdicar da sua fé. É difícil não sentir uma forte emoção quando se olha para ele, preferindo a tortura e o calor do fogo a acobardar-se. Morreu por uma causa, como todos os heróis, e talvez por isso mereça ser recordado.
Quando estamos juntos parecemos isolados do resto do mundo. Trocamos poemas, alguns são originais, gosto de escrever poesia, o Mário também. Outros são de poetas portugueses, uma exigência minha. Ele é fanaticamente universalista, eu sou nacionalista. Carrego Portugal dentro de mim, do erudito ao popular, e não poderia ser de outra forma. Fundidas complementam-se e saciam as necessidades do meu espírito. As minhas limitações reservam-se a este país. Nele, os horizontes são ilimitados.
O Mário não concorda em conhecer uma única realidade. Diz que nos faz pequenos, quando as nossas manifestações podem ser universais. É louco por todos os países do mundo. Pelo passado, pelo presente, pelo futuro. Admiro a sua energia. Admiro o amor que existe dentro dele.
O silêncio deu-se numa tarde cinzenta de verão. Ontem. Porque será que as maiores desgraças dão-se em dias cinzentos? É angustiante para quem não tem a alegria de ver o Sol, ficamos perdidos sem ter nada a que socorrer, como se a luz nos acolhesse e protegesse dos perigos terrestres.
No princípio, o Sol era bem maior do que é agora e completamente vermelho. Porém, pouco a pouco começou a contrair-se, a ficar amarelo, e a aumentar a sua temperatura interior. Todas as civilizações do mundo o elevaram ao estatuto de deus. Amon, Tonatiuh, Viracocha, Surya, Re, Quetzalcoatl, Hórus, Uitzilopochtli, Aton... Um deus fonte de vida e de destruição. Uma estrela a 150 milhões de quilómetros e 109 vezes maior do que a Terra. Uma caldeira que produz uma actividade vulcânica espantosa. Actualmente, começou a transformar hidrogénio em hélio. Este fenómeno de fusão nuclear garantirá estabilidade e luminosidade. Uma protecção que só durará mais 5 000 milhões de anos.
Pensava que o mais difícil seria encontrar alguém que despertasse em mim sentimentos raros como o desejo ou a paixão. Neste arrastamento do hoje descobri que o mais difícil é mantê-los. Como tudo se perdeu nem eu sei. Talvez o tempo, talvez eu, talvez ele, talvez ninguém, ou nada. Talvez a vida seja mesmo assim.
Faltava-me uma preparação antecipada, este é daquele género de assuntos que se aprendem vivendo e não nos livros. Se calhar até os existem, nós é que os ignoramos, preferimos desconhecer, ou não os reconhecemos. A perda da inocência custa-nos muito cara e sinceramente quando mais tarde melhor. Não sei determinar a época em que a perdi. Não duvido se ainda restarem algumas sombras, ainda sou jovem e não quero acreditar no contrário.
Quando conheci o Mário dei por mim novamente a suster pensamentos românticos e a suspirar, como quem o faz quando se apaixona pela primeira vez. Regressava de Lisboa no intercidades em primeira classe. Tinha ido com uma amiga que estudava comigo no liceu, a Elisa, à Expo 98.
A Elisa é uma menina-mulher como a Penépole Cruz. Bonita de qualquer ângulo e em qualquer circunstância, mas extremamente aplicada e rigorosa na condução do seu percurso terrestre, ao contrário de mim. Deixo-me levar demasiado por estados de inércia e langor. Não é que goste, sou assim.
A Elisa diz que nos formamos a nós mesmos, da mesma forma que um escritor cria um personagem, não sei se acredito. Tem dias que sim, tem dias que não. Admito a nossa complexidade, mas recuso um ponto de vista tão simples. Se eu fosse como gostaria de ser... deixaria de ser quem sou... Se bem que isso pouca importância tem para os outros. De preferência devemos ser aquilo que esperam de nós, e não aquilo que queremos ser.
Curiosamente, eu e o Mário já nos tínhamos cruzado no pavilhão da Colômbia enquanto provávamos um café oferecido por uma rapariga sorridente.
Gostei dele quando o vi. Gostei do olhar tímido e fugidio, do contorno dos maxilares, do cabelo negro, do tom da pele, dos lábios carnudos quase em forma de coração. Gostei dele, mas não o suficiente para abordá-lo com perguntas estúpidas, não faz o meu género. Nunca fez. Posso olhar de vez em quando para alguém, fazer um certo jogo de sedução, mas jamais dou o primeiro passo. E é bizarro reconhecer o quanto detesto que o façam. Detesto quando olham fixamente para mim, num olhar guloso e perseguidor. Provoca-me um certo desprezo e asco.
Gosto quando o olhar é engenhoso, quando existe cumplicidade num não querer nada. Desejar apenas o que não vamos ter, desdenhosamente.
Com o Mário começou assim. Eu olhava para ele e ele olhava para uns panfletos que trazia nas mãos. Ele olhava para mim e eu desviava a atenção para Elisa. Havíamos ficado por aqui. Pensei que não tornaria a vê-lo. Era como tantos outros olhares ocasionais e furtivos surgidos num autocarro, no metro, nos semáforos, no cinema, num supermercado... Clandestinos, sem uma planificação antecipada.
Tornei a encontrá-lo inesperadamente no bar do combóio. Comentei com a Elisa e esta não se fazendo de rogada, e na tenacidade que lhe é característica nestas ocasiões, foi ter com ele para lhe pedir lume com um cigarro na ponta dos dedos, em pose de Simone de Oliveira. Ele não tinha, porque não fuma, e ainda lhe recomendou que não fumasse porque não era permitido fumar naquela carruagem. Ela num tom arrogante e lacónico respondeu-lhe Ah sim?, ao que justificou peremptoriamente o pedido afirmando que não poderiam trancafiá-la numa prisão por satisfazer um vício legal e, mudando de assunto como quem muda de oxigénio, perguntou-lhe o signo astrológico mostrando-se acessível e interessada. Carneiro, respondeu sorrindo para mim. Decidi aproximar-me dos dois, e sentei-me no sofá verde-alface em forma de cotovelo. És do Algarve?, perguntei-lhe. Sim, de Albufeira, e vocês? Olhei para a Elisa e começámos a rir. És de Albufeira? Que feliz coincidência! Nós também!
Para quem considerava o amor uma fantasia, foi uma descoberta. Tinha dezasseis anos, o Mário quinze. Não lamento o contrário. Fui feliz. Mesmo. Muito. O primeiro amor. Hoje tenho a certeza dos estragos de um simples erro, é como um buraco na roupa, por muito que tentemos remediá-lo já não há nada a fazer. Nada. O erro faz parte de nós mas encontramos dificuldades em perdoar. Porquê? E quando perdoamos não conseguimos esquecer, fica lá para sempre, na nossa memória, como uma daquelas marcas que fazem no gado.
Sei que o desiludi, não lhe disse nada, mas ele sabe. Se soubesses Mário gosto tanto de ti. Tanto. Se escrevesse tudo o que sinto cairia no ridículo, num barato melodrama de telenovela. É a verdade... Imaginar o toque da tua mão no meu corpo reanima-me, anima-me a alma e faz-me sorrir... É um sorriso triste, mas um sorriso vale sempre por ser um sorriso. Lembras-te? Dizias-me isto tantas vezes e eu não entendia... Como não entendia tantas outras coisas. Recordo as vezes em que permanecemos unidos. Uma ponte. Não dois. Um. Criámos um hábito e agora não sei viver sem ele. Fazes parte de mim... Sinto as pálpebras pesadas, mas não consigo dormir. Não quero! Imaginar o dia de amanhã sem ti, magoa-me. Indubitavelmente.
Ouço as primeiras pessoas a encherem as ruas, transeuntes apressados, imagino-os sinistros denotando infelicidade. Todas as manhãs são iguais com locutores de rádios a contar piadas estúpidas para extorquirem sorrisos de caras impávidas e ramelosas. Não vejo nada de mal, é admirável o esforço dedicado à causa, comigo acaba sempre por resultar.
Agora estão a passar uma música das nossas queridas Doce. Quem é que não gostava delas? Eram fabulosas. Confesso que fui fã, a minha preferida era a Lena Coelho, a morena, de voz frágil e submissa, de sorriso triste. A loira não cantava, mas isso agora nada interessa, foi um projecto excelentemente idealizado com quatro meninas bonitas. Mulheres feitas por homens, e ao gosto destes. Resultou bem, eram outros tempos. Era criança, mas lembro-me. Era um outro Portugal, mais ingénuo, puro, aberto a tudo o que vinha do exterior, ainda recordo a fase do que era bom era o que vinha do estrangeiro.
Os Estados Unidos vendiam uma imagem de felicidade aliada a electrodomésticos, roupas brilhantes e maquilhagem forte. Hoje admiro os anos 80, para muitos foi uma década de decadência, para mim foram os anos mais felizes da minha vida. Apesar de ainda não existir sei que foi forte a emoção de passar a ter dois canais de televisão, ainda a preto e branco. E quando chegou a cor? Indiscritível! Autêntico delírio. O país parou em peso! Estávamos rendidos ao consumismo e a tudo o que aparecia na televisão. Foi uma época divertida e de descoberta. As primeiras crianças educadas num ambiente de liberdade. Crianças que valorizavam pequenas coisas que actualmente são ridículas como jogar ao pião, ao berlinde, ou ao elástico. Eu faço parte do momento de transição. Havia menos competição e mais simplicidade nos actos. É o preço da evolução e do progresso, afinal, o que são estes miseráveis brinquedos comparados a um cão robotizado ou a uma consola Playstation II?
Fico feliz com o estado actual de Portugal, porque voltamos a apreciar o que é nosso. A Cultura, o Folclore, o Tradicional, o Fado ou as Marchas Populares. Por outro lado, os efeitos da Globalização são inegáveis: o consumismo, o crédito, a moral, os costumes, a moda...
Não será uma defesa nossa? Uma necessidade de definirmos uma Identidade? Algo que faça de nós portugueses? Sinceramente, por muito que reconheça o valor artístico de bandas como The Gift e Silence 4 não suporto os nomes e letras em inglês. Terão vergonha da língua de Agustina? Saramago? Lobo Antunes?...
Poderia proferir tantos outros nomes, nomes que me fazem sorrir, assim como o teu Mário. M-a-r-i-o! Cinco letras, cinco sons, cinco apelos aos meus sentidos, uma letra para cada um...
Hoje procurei-te, tens o telemóvel desligado, onde estás? Porque não atendes? Por que não falas comigo? O que está a acontecer? Sinto-me a endoidecer por dentro, sinto que este amor me está a levar para à perdição... Por muito que queira não consigo deixar de chorar. Agarrei-me a uma cadeira de joelhos, carente, abraçada a ela e verti todo o sofrimento que me está a consumir e a destruir por dentro. Preciso tanto, tanto de ti... Abandonas-me quando mais preciso... Fazes-me sentir só. Fazes com que perca toda a alegria de viver, fazes com que pense na morte. Mas eu não quero morrer. Apenas te quero a ti, meu querido, meu grande amor... O amor da minha vida...
Por que razão não ligas o telemóvel? Por que razão não falas comigo? Se soubesses como o teu desprezo me magoa e me destrói... Foges de mim? Conheço-te! Consigo sentir a tua frustração... Perdi-me, nesciamente... Quero tanto olhar para ti outra vez, pegar na tua mão, acariciá-la, beijá-la. Entupir-te de beijos, sentir o aroma do teu perfume, cheiras sempre tão bem, fresco e alimonado.
Não quero mentir-te mais, dizer que está tudo bem, quando não está. Não devo. Porém não posso dizer-te a verdade, é minha, não é tua, não fazes parte dela. Precisei de vivê-la naqueles momentos, aprender mais sobre mim, crescer, e agora preciso de ti novamente. Se isto fizesse algum sentido para ti. Não faz.
O meu pai saiu agora de casa, foi para o restaurante. A morte da minha mãe modificou-o, vive com remorsos, sabe que não a fez feliz. Batia-lhe. Recordo os seus gritos de apelo, agarrava-me às suas pernas e ele levava-me novamente para o quarto. Batia-lhe mais. Odiava-o. Ocasionalmente aparecia um vizinho. Acalma-te Quim! Tarde demais, já estava marcada, devia-lhe respeito e obediência. Eu chorava na minha cama, doía-me ouvir o bater do seu corpo nas paredes, objectos a partirem-se, o seu choro, o olhar do dia seguinte...
A tua ausência é sentida todos os dias. Faz-me falta o teu abraço, as palavras insubstituíveis de uma mãe. Um vazio que ficou na minha vida. Estou só. Queria poder erguer-me novamente e esquecer o momento trágico que estou tentar ultrapassar. A minha vida não é ficção, tudo isto está mesmo a acontecer, por muito que pareça uma mentira. As tragédias não são exclusivas da Sétima Arte ou da Literatura. Não sei se a Arte imita a Vida, ou se a Vida imita a Arte...
Entre mim e o meu pai ficou o silêncio, a vergonha dele, o meu rancor. E não gosto de pensar nisto, é triste. O meu pai tem-me feito muito mal. Ele tem essa consciência, e só eu sei o que tem acontecido ao longo destes anos. Mas não o direi, porque recuso-me a pensar no que ele é.
O meu hoje é o ontem, e tenho medo de hoje. Vou encontrar o Mário, sinto-o, sei. Dependo dele, como se dependesse de uma droga. E não sei decidir entre a verdade ou a mentira, a cobardia ou a coragem. Não sei fazer uma escolha aparentemente simples ou fácil, por ser arriscada. Há quem considere o risco sedutor e necessite dele para viver, alpinistas, bombeiros. O risco existe em torno do ser humano e há quem goste de encontrar os seus limites, descobri-los, testá-los, como um artista de circo, domador de leões ou trapezista. Os heróis arriscam, por isso são admirados e amados. Eu prefiro esperar para ver no que dá, crente no destino, sem saber se ele existe.
Exigem-nos escolhas desde muito cedo. Gostas mais do teu pai ou da tua mãe? O que queres ser quando fores grande? Ou isto, ou aquilo. Não podemos ter tudo. Porquê? Eu não gosto de escolher, nunca gostei... Não me ensinaram a escolher! Ensinaram-me como as coisas devem ser, o certo e o errado. Nem sempre o que é o certo é o melhor para mim. Dilema criado por nós em nome da ordem e da moral, meros conceitos abstractos, palavras pesadas, não gosto.
A vida é como é. A verdadeira liberdade só pode existir no pensamento, em nós. Não no dia-a-dia, movimento rotineiro, encenamos personagens, estão todas em nós, não estamos em nenhuma. Nunca totalmente. Simples traços modestos. É um poder estranho, podemos ser qualquer pessoa mas não podemos ser nós. É assustador, tenebroso, maquiavélico...
Sei uma parte do amanhã. A prisão do emprego, as contas, as dívidas, as responsabilidades, o crédito, a imagem, e não o quero. Nada me faz querer dormir, não quero acordar, quero que seja sempre hoje. Estão a bater à porta. Quem será?
«Mário?»
«Sei que tentaste ligar-me, mas precisei de pensar um pouco.»
«Querias enlouquecer-me? Mas ainda bem que chegaste... Tenho algo a confessar-te, é melhor entrares.»
«O teu pai não está em casa?»
«Não, já saiu para o restaurante. Vamos para o meu quarto.»
«Sei o que vais dizer, prefiro ser eu a falar do assunto.»
«Não, deixa-me falar! Eu sinto necessidade de falar! Eu já sei que tu sabes...»
«Sim, é verdade. Eu consegui sentir isso, quando estivemos juntos pela última vez, anteontem. Senti que já sabias, o teu silêncio e o teu olhar disseram tudo...»
«Eu também senti que tu já sabias, que eu sabia. Ficámos calados... Não tenho conseguido pensar noutra coisa, estou tão triste... Dás-me o teu abraço?»
«Desculpa-me, eu sei que errei.»
«Tu? Erraste? Não! Tu não! Fui eu que errei! Sou egoísta. Deveria amar-te melhor. Mário gosto muito de ti... amo-te... »
«Eu também te amo muito... meu amor...»
«Deveria ter tido forças para contrariar o meu pai, os meus instintos, e não tenho! Não valho nada...»
«Não chores... Sabes que não suporto ver ninguém chorar!»
«Deixa-me chorar! Eu odeio-o! Odeio-o por não conseguir odiá-lo!»
«Vá, acalma-te... Eu estou aqui...»
«Não me deixes!... Nunca pensei dizer uma coisa destas! Mas, não me deixes... Não me deixes Mário... Pelos menos neste momento...»
«Eu não quero deixar-te, amo-te tanto Helena... Tanto! Se tu soubesses.... O que aconteceu entre mim e o Filipe foi apenas...»
«O quê?»
O conto Hoje serviu de ponto de partida para o romance de dia e de noite.
Não sei se existe um pensamento independente da linguagem, ou se a linguagem é o nosso pensamento. Sei que o pensamento e a expressão não são uma só coisa, porque existem milhares de línguas. Não sei quando começámos a falar, nem a sua enigmática origem.
Debato-me se a vida seria simplificada na ausência destes sons mesclados, contariam os actos, as pessoas. Tem dias que desprezo o progresso, de todo o tipo, e ocorre-me a ideia de fugir para o mato e lá habitar numa pequena cabana, ou gruta, semeando milho e alimentando-me de raízes. Mas não sou capaz., é como um vício, sabemos que nos faz mal e mesmo assim continuamos sem deixar de consumi-lo, ambicionando cada vez mais e mais, e sem saber bem porquê, ou para quê. É doentio e absurdamente vazio, perco a crença em mim e já nem sei o que sou, ou no que me fiz. No que poderia ser.
Sei a justificação deste meu abandono, não a quero aceitar. Sinto um vínculo no meu peito, e incomoda-me. O medo comprime-me e não tenho alento para erigir o que resta de mim. Dramaticamente. Queria olhar de novo para o reflexo no espelho e sorrir, esboçar um simples sorriso. A angústia inexorável em perder-me, desilude-me. Uma vez mais repito que não gosto de estar assim, não é este o meu conceito de existir. Nunca foi.
De manhã, vesti-me sem atenção e corri veloz atravessando a cidade de uma ponta à outra. Encontrei-a destruída, cheia de buracos, pó, tornando o ar irrespirável. É como se estivesse a decorrer uma operação, cruelmente aberta e destruída. Não gostei.
Um rapaz caiu com a motorizada à minha frente, e numa explosão de indolência e indiferença não soube como reagir. Não consegui parar e prestar-lhe o meu importantíssimo auxílio naquela trágica situação. Algo me impediu de abrandar a velocidade. E continuei a fugir, a fugir, a fugir, até um lugar. Um lugar a tocar o Mar.
Olha para a paisagem... Somos tão pequenos neste mundo. Só quando andei pela primeira vez de avião tive noção da nossa insignificância. Lá de cima não existe distinção, somos todos iguais, constantemente em movimento e atarefados... Ao mesmo tempo é como se despertasse para outra realidade, e visse as coisas como elas realmente são! Mário falou como um budista iluminado, em entender o mundo como ele de facto é. A nossa insignificância na grandiosidade universal. Parece um pensamento destituído de grande interesse, porém a vida é um mistério e até o desvendar não penso conseguir ver as coisas como elas são.
As religiões abordam a fantasia de um modo natural, falam de um Deus criador, um Deus falador e pensante que através da Palavra criou a matéria. Primeiro tivemos o signo e como consequência o objecto. É como se já existissem antes de serem criadas, uma árvore, uma estrela, uma lagoa, uma mulher... E isso não consigo entender, faz-me confusão pensar que fomos criados nestas condições. Faz-me confusão venerar um Deus que me criou à sua imagem sem questionar a sua existência. Faz-me confusão venerar um Deus que para mim não é o Deus.
Perturba-me pensar na possibilidade de existir uma força superior aos deuses, criados pelo Homem. Talvez a fusão de certos elementos, ou gases, surgidos do vazio, superior a palavras ou imagens... Mas não sei.
No momento em que o Mário me mostrou aquele lugar elevado, próximo de um farol, a tocar o Mar, só quis abraçá-lo e pensar em como o amava. Amo o seu carinho pelo milagre da vida, por pequenos pormenores que nos escapam no dia-a-dia. Ele lembra-mos, e eu gosto. Gosto do encantamento que sinto por caminhar ao seu lado, por o ouvir falar ininterruptamente sobre a evolução da espécie humana e a nossa intrigante existência. Gosto de estar ao pé dele.
Quando olhas para o céu o que vês? Perguntou-me nessa noite. Na mesma noite em que me ofereceu o Vespertine da Björk.
Vejo o céu, as estrelas... algumas nuvens... Hoje não há Lua... Respondi ingenuamente sem entender o que ele pretendia de mim, provocando uma reacção brusca.
Por acaso até há! Ela anda por aí, algures, nós é que não a conseguimos ver! A luminosidade é apenas aparente, apesar do destaque na imensa escuridão do céu, numa noite de Lua cheia, é o Sol que a protege e ilumina. Casaram-se há muitos anos, mas de vez em quando discutem, como todos os casais modernos.
O Mário faz-me rir imensas vezes. Está provado cientificamente que nos sentimos atraídos por pessoas que nos façam rir. E rir faz-nos bem, altera a nosso batimento cardíaco, a pressão sanguínea e a actividade cerebral.
Mas só consegues ver isso? Olha outra vez! Olha para além das nuvens, das estrelas!... Espera! Faz antes assim, fecha os olhos e imagina todo o sistema solar. Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Úrano, Neptuno, Plutão...
Alheei-me de tudo e visualizei a nossa galáxia. É esquisito... Não sei explicar... Disse após alguns instantes, elevando as mãos à cabeça. Estás a assustar-me!
O Mário começou por explicar-me que o Universo começou do nada, com o Big Bang. Era uma bola de fogo, quente e densa, que deu origem ao tempo e ao espaço há cerca de doze a quinze mil milhões de anos. Era o Ovo Cósmico com um raio de apenas cento e trinta milhões de quilómetros. A partir desse primeiro instante o Universo tem-se estendido como um longo tapete bordado de estrelas e galáxias.
Nos confins do espaço estão as estrelas primogénitas que nasceram pouco depois da primeira manifestação do Universo. É lá, a biliões de anos luz, que está o nosso passado.
O Mário fez-me pensar sobre o meu lugar no meio de tudo isto. Esta enorme grandiosidade de espaço e matéria na qual eu sou apenas invisível. Perturbou-me. Perturbou-me pensar na questão do fim do Universo. Se se expande é porque tem um fim, e eu não sei como será esse fim. É como se o Universo estivesse dentro de algo eternamente vago e estéril, e questiono-me sobre a existência de mais ovos cósmicos no interior deste enorme vazio. Questiono-me sobre os limites do tempo e da vida. Questiono-me sobre o meu amor pelo Mário.
Nessa noite, escura e abafada, beijei-lhe os lábios rosados numa meiguice paciente, e receei o dia de hoje. Olhei para ele e como numa brincadeira de crianças tapei os seus olhos. O que estás a ver agora? Hesitou durante algum tempo e depois num tom quente e calmo... Já te tinha dito o quanto gosto da tua voz? Fala para mim... Diz-me o que pensas... Deixa-me ouvir a tua alma... Diz-me palavras bonitas...
Desci as minhas mãos até às suas e permanecemos de olhos fechados enquanto entoava melodias desconhecidas, evacuadas improvisadamente ao ritmo de energias mútuas que ao se fundirem numa só fizeram com que sentisse o enamoramento na minha voz. Sorri.
Senti que deixávamos o chão elevados no espaço. Flutuávamos em busca do fim do Universo sem entender o princípio do que aparentemente tem, ou não, um fim. Sem entender o nada ou o vazio.
Descemos umas escadas de madeira até à praia e ficámos deitados na areia de frente para o Mar. Nesses dias acreditava no futuro, sem dúvidas. Era meu, havia perscrutado na minha alma sem quaisquer obstáculos, e não colocava a hipótese de o perder. Havia nascido para mim, e eu para ele. Uma ruptura soava-me a uma impossibilidade cósmica.
Éramos gémeos nas mais pequenas coisas. Num sorriso, num olhar, num simples gesto de amizade. Éramos gémeos no sentir da vida, no caminhar na rua num dia de chuva, num contacto de pele permanente. Num saborear um chá com leite, e trocar um olhar cúmplice quase mágico por entre uma mordidela numa fatia de bolo caseiro, daqueles simples só com ovos, farinha e muito açúcar.
A noção da impossibilidade de um simples beijo trocado publicamente era esquecida nesses curtos instantes. Gostaríamos de poder esticar esses segundos de ignorância e vivê-los num tempo incerto.
Éramos gémeos no desejo de habitar num mundo diferente, com outras leis, outros mandamentos. Queríamos que a vida fosse mais simples, sem tantas expectativas. Vivíamos presos a uma sociedade que lamentávamos. Vivíamos presos numa apregoada liberdade. Liberdade? Qual Liberdade? Como sorriamos ironicamente ao pronunciá-la e assim mesmo nada fazíamos.
Éramos gémeos nas fraquezas, tão diminuídas quando estávamos juntos, quando ocasionalmente uma mão tocava na outra, numa mesma angústia, como a de sabermos que nunca poderíamos partilhar a mesma escova de dentes.
Aguardava sempre impacientemente para estar na presença do Mário. Os nossos encontros eram num pequeno jardinzinho situado no Largo Jacinto d’Ayet. No centro um sacerdote de bronze, Beato Vicente, em chamas, erguendo um crucifixo. Em criança não entendia porquê, mas mais tarde descobri que fora queimado em Nagasaqui, no Japão, enquanto pregava a Fé de Cristo, no século XVII. Preferiu morrer a abdicar da sua fé. É difícil não sentir uma forte emoção quando se olha para ele, preferindo a tortura e o calor do fogo a acobardar-se. Morreu por uma causa, como todos os heróis, e talvez por isso mereça ser recordado.
Quando estamos juntos parecemos isolados do resto do mundo. Trocamos poemas, alguns são originais, gosto de escrever poesia, o Mário também. Outros são de poetas portugueses, uma exigência minha. Ele é fanaticamente universalista, eu sou nacionalista. Carrego Portugal dentro de mim, do erudito ao popular, e não poderia ser de outra forma. Fundidas complementam-se e saciam as necessidades do meu espírito. As minhas limitações reservam-se a este país. Nele, os horizontes são ilimitados.
O Mário não concorda em conhecer uma única realidade. Diz que nos faz pequenos, quando as nossas manifestações podem ser universais. É louco por todos os países do mundo. Pelo passado, pelo presente, pelo futuro. Admiro a sua energia. Admiro o amor que existe dentro dele.
O silêncio deu-se numa tarde cinzenta de verão. Ontem. Porque será que as maiores desgraças dão-se em dias cinzentos? É angustiante para quem não tem a alegria de ver o Sol, ficamos perdidos sem ter nada a que socorrer, como se a luz nos acolhesse e protegesse dos perigos terrestres.
No princípio, o Sol era bem maior do que é agora e completamente vermelho. Porém, pouco a pouco começou a contrair-se, a ficar amarelo, e a aumentar a sua temperatura interior. Todas as civilizações do mundo o elevaram ao estatuto de deus. Amon, Tonatiuh, Viracocha, Surya, Re, Quetzalcoatl, Hórus, Uitzilopochtli, Aton... Um deus fonte de vida e de destruição. Uma estrela a 150 milhões de quilómetros e 109 vezes maior do que a Terra. Uma caldeira que produz uma actividade vulcânica espantosa. Actualmente, começou a transformar hidrogénio em hélio. Este fenómeno de fusão nuclear garantirá estabilidade e luminosidade. Uma protecção que só durará mais 5 000 milhões de anos.
Pensava que o mais difícil seria encontrar alguém que despertasse em mim sentimentos raros como o desejo ou a paixão. Neste arrastamento do hoje descobri que o mais difícil é mantê-los. Como tudo se perdeu nem eu sei. Talvez o tempo, talvez eu, talvez ele, talvez ninguém, ou nada. Talvez a vida seja mesmo assim.
Faltava-me uma preparação antecipada, este é daquele género de assuntos que se aprendem vivendo e não nos livros. Se calhar até os existem, nós é que os ignoramos, preferimos desconhecer, ou não os reconhecemos. A perda da inocência custa-nos muito cara e sinceramente quando mais tarde melhor. Não sei determinar a época em que a perdi. Não duvido se ainda restarem algumas sombras, ainda sou jovem e não quero acreditar no contrário.
Quando conheci o Mário dei por mim novamente a suster pensamentos românticos e a suspirar, como quem o faz quando se apaixona pela primeira vez. Regressava de Lisboa no intercidades em primeira classe. Tinha ido com uma amiga que estudava comigo no liceu, a Elisa, à Expo 98.
A Elisa é uma menina-mulher como a Penépole Cruz. Bonita de qualquer ângulo e em qualquer circunstância, mas extremamente aplicada e rigorosa na condução do seu percurso terrestre, ao contrário de mim. Deixo-me levar demasiado por estados de inércia e langor. Não é que goste, sou assim.
A Elisa diz que nos formamos a nós mesmos, da mesma forma que um escritor cria um personagem, não sei se acredito. Tem dias que sim, tem dias que não. Admito a nossa complexidade, mas recuso um ponto de vista tão simples. Se eu fosse como gostaria de ser... deixaria de ser quem sou... Se bem que isso pouca importância tem para os outros. De preferência devemos ser aquilo que esperam de nós, e não aquilo que queremos ser.
Curiosamente, eu e o Mário já nos tínhamos cruzado no pavilhão da Colômbia enquanto provávamos um café oferecido por uma rapariga sorridente.
Gostei dele quando o vi. Gostei do olhar tímido e fugidio, do contorno dos maxilares, do cabelo negro, do tom da pele, dos lábios carnudos quase em forma de coração. Gostei dele, mas não o suficiente para abordá-lo com perguntas estúpidas, não faz o meu género. Nunca fez. Posso olhar de vez em quando para alguém, fazer um certo jogo de sedução, mas jamais dou o primeiro passo. E é bizarro reconhecer o quanto detesto que o façam. Detesto quando olham fixamente para mim, num olhar guloso e perseguidor. Provoca-me um certo desprezo e asco.
Gosto quando o olhar é engenhoso, quando existe cumplicidade num não querer nada. Desejar apenas o que não vamos ter, desdenhosamente.
Com o Mário começou assim. Eu olhava para ele e ele olhava para uns panfletos que trazia nas mãos. Ele olhava para mim e eu desviava a atenção para Elisa. Havíamos ficado por aqui. Pensei que não tornaria a vê-lo. Era como tantos outros olhares ocasionais e furtivos surgidos num autocarro, no metro, nos semáforos, no cinema, num supermercado... Clandestinos, sem uma planificação antecipada.
Tornei a encontrá-lo inesperadamente no bar do combóio. Comentei com a Elisa e esta não se fazendo de rogada, e na tenacidade que lhe é característica nestas ocasiões, foi ter com ele para lhe pedir lume com um cigarro na ponta dos dedos, em pose de Simone de Oliveira. Ele não tinha, porque não fuma, e ainda lhe recomendou que não fumasse porque não era permitido fumar naquela carruagem. Ela num tom arrogante e lacónico respondeu-lhe Ah sim?, ao que justificou peremptoriamente o pedido afirmando que não poderiam trancafiá-la numa prisão por satisfazer um vício legal e, mudando de assunto como quem muda de oxigénio, perguntou-lhe o signo astrológico mostrando-se acessível e interessada. Carneiro, respondeu sorrindo para mim. Decidi aproximar-me dos dois, e sentei-me no sofá verde-alface em forma de cotovelo. És do Algarve?, perguntei-lhe. Sim, de Albufeira, e vocês? Olhei para a Elisa e começámos a rir. És de Albufeira? Que feliz coincidência! Nós também!
Para quem considerava o amor uma fantasia, foi uma descoberta. Tinha dezasseis anos, o Mário quinze. Não lamento o contrário. Fui feliz. Mesmo. Muito. O primeiro amor. Hoje tenho a certeza dos estragos de um simples erro, é como um buraco na roupa, por muito que tentemos remediá-lo já não há nada a fazer. Nada. O erro faz parte de nós mas encontramos dificuldades em perdoar. Porquê? E quando perdoamos não conseguimos esquecer, fica lá para sempre, na nossa memória, como uma daquelas marcas que fazem no gado.
Sei que o desiludi, não lhe disse nada, mas ele sabe. Se soubesses Mário gosto tanto de ti. Tanto. Se escrevesse tudo o que sinto cairia no ridículo, num barato melodrama de telenovela. É a verdade... Imaginar o toque da tua mão no meu corpo reanima-me, anima-me a alma e faz-me sorrir... É um sorriso triste, mas um sorriso vale sempre por ser um sorriso. Lembras-te? Dizias-me isto tantas vezes e eu não entendia... Como não entendia tantas outras coisas. Recordo as vezes em que permanecemos unidos. Uma ponte. Não dois. Um. Criámos um hábito e agora não sei viver sem ele. Fazes parte de mim... Sinto as pálpebras pesadas, mas não consigo dormir. Não quero! Imaginar o dia de amanhã sem ti, magoa-me. Indubitavelmente.
Ouço as primeiras pessoas a encherem as ruas, transeuntes apressados, imagino-os sinistros denotando infelicidade. Todas as manhãs são iguais com locutores de rádios a contar piadas estúpidas para extorquirem sorrisos de caras impávidas e ramelosas. Não vejo nada de mal, é admirável o esforço dedicado à causa, comigo acaba sempre por resultar.
Agora estão a passar uma música das nossas queridas Doce. Quem é que não gostava delas? Eram fabulosas. Confesso que fui fã, a minha preferida era a Lena Coelho, a morena, de voz frágil e submissa, de sorriso triste. A loira não cantava, mas isso agora nada interessa, foi um projecto excelentemente idealizado com quatro meninas bonitas. Mulheres feitas por homens, e ao gosto destes. Resultou bem, eram outros tempos. Era criança, mas lembro-me. Era um outro Portugal, mais ingénuo, puro, aberto a tudo o que vinha do exterior, ainda recordo a fase do que era bom era o que vinha do estrangeiro.
Os Estados Unidos vendiam uma imagem de felicidade aliada a electrodomésticos, roupas brilhantes e maquilhagem forte. Hoje admiro os anos 80, para muitos foi uma década de decadência, para mim foram os anos mais felizes da minha vida. Apesar de ainda não existir sei que foi forte a emoção de passar a ter dois canais de televisão, ainda a preto e branco. E quando chegou a cor? Indiscritível! Autêntico delírio. O país parou em peso! Estávamos rendidos ao consumismo e a tudo o que aparecia na televisão. Foi uma época divertida e de descoberta. As primeiras crianças educadas num ambiente de liberdade. Crianças que valorizavam pequenas coisas que actualmente são ridículas como jogar ao pião, ao berlinde, ou ao elástico. Eu faço parte do momento de transição. Havia menos competição e mais simplicidade nos actos. É o preço da evolução e do progresso, afinal, o que são estes miseráveis brinquedos comparados a um cão robotizado ou a uma consola Playstation II?
Fico feliz com o estado actual de Portugal, porque voltamos a apreciar o que é nosso. A Cultura, o Folclore, o Tradicional, o Fado ou as Marchas Populares. Por outro lado, os efeitos da Globalização são inegáveis: o consumismo, o crédito, a moral, os costumes, a moda...
Não será uma defesa nossa? Uma necessidade de definirmos uma Identidade? Algo que faça de nós portugueses? Sinceramente, por muito que reconheça o valor artístico de bandas como The Gift e Silence 4 não suporto os nomes e letras em inglês. Terão vergonha da língua de Agustina? Saramago? Lobo Antunes?...
Poderia proferir tantos outros nomes, nomes que me fazem sorrir, assim como o teu Mário. M-a-r-i-o! Cinco letras, cinco sons, cinco apelos aos meus sentidos, uma letra para cada um...
Hoje procurei-te, tens o telemóvel desligado, onde estás? Porque não atendes? Por que não falas comigo? O que está a acontecer? Sinto-me a endoidecer por dentro, sinto que este amor me está a levar para à perdição... Por muito que queira não consigo deixar de chorar. Agarrei-me a uma cadeira de joelhos, carente, abraçada a ela e verti todo o sofrimento que me está a consumir e a destruir por dentro. Preciso tanto, tanto de ti... Abandonas-me quando mais preciso... Fazes-me sentir só. Fazes com que perca toda a alegria de viver, fazes com que pense na morte. Mas eu não quero morrer. Apenas te quero a ti, meu querido, meu grande amor... O amor da minha vida...
Por que razão não ligas o telemóvel? Por que razão não falas comigo? Se soubesses como o teu desprezo me magoa e me destrói... Foges de mim? Conheço-te! Consigo sentir a tua frustração... Perdi-me, nesciamente... Quero tanto olhar para ti outra vez, pegar na tua mão, acariciá-la, beijá-la. Entupir-te de beijos, sentir o aroma do teu perfume, cheiras sempre tão bem, fresco e alimonado.
Não quero mentir-te mais, dizer que está tudo bem, quando não está. Não devo. Porém não posso dizer-te a verdade, é minha, não é tua, não fazes parte dela. Precisei de vivê-la naqueles momentos, aprender mais sobre mim, crescer, e agora preciso de ti novamente. Se isto fizesse algum sentido para ti. Não faz.
O meu pai saiu agora de casa, foi para o restaurante. A morte da minha mãe modificou-o, vive com remorsos, sabe que não a fez feliz. Batia-lhe. Recordo os seus gritos de apelo, agarrava-me às suas pernas e ele levava-me novamente para o quarto. Batia-lhe mais. Odiava-o. Ocasionalmente aparecia um vizinho. Acalma-te Quim! Tarde demais, já estava marcada, devia-lhe respeito e obediência. Eu chorava na minha cama, doía-me ouvir o bater do seu corpo nas paredes, objectos a partirem-se, o seu choro, o olhar do dia seguinte...
A tua ausência é sentida todos os dias. Faz-me falta o teu abraço, as palavras insubstituíveis de uma mãe. Um vazio que ficou na minha vida. Estou só. Queria poder erguer-me novamente e esquecer o momento trágico que estou tentar ultrapassar. A minha vida não é ficção, tudo isto está mesmo a acontecer, por muito que pareça uma mentira. As tragédias não são exclusivas da Sétima Arte ou da Literatura. Não sei se a Arte imita a Vida, ou se a Vida imita a Arte...
Entre mim e o meu pai ficou o silêncio, a vergonha dele, o meu rancor. E não gosto de pensar nisto, é triste. O meu pai tem-me feito muito mal. Ele tem essa consciência, e só eu sei o que tem acontecido ao longo destes anos. Mas não o direi, porque recuso-me a pensar no que ele é.
O meu hoje é o ontem, e tenho medo de hoje. Vou encontrar o Mário, sinto-o, sei. Dependo dele, como se dependesse de uma droga. E não sei decidir entre a verdade ou a mentira, a cobardia ou a coragem. Não sei fazer uma escolha aparentemente simples ou fácil, por ser arriscada. Há quem considere o risco sedutor e necessite dele para viver, alpinistas, bombeiros. O risco existe em torno do ser humano e há quem goste de encontrar os seus limites, descobri-los, testá-los, como um artista de circo, domador de leões ou trapezista. Os heróis arriscam, por isso são admirados e amados. Eu prefiro esperar para ver no que dá, crente no destino, sem saber se ele existe.
Exigem-nos escolhas desde muito cedo. Gostas mais do teu pai ou da tua mãe? O que queres ser quando fores grande? Ou isto, ou aquilo. Não podemos ter tudo. Porquê? Eu não gosto de escolher, nunca gostei... Não me ensinaram a escolher! Ensinaram-me como as coisas devem ser, o certo e o errado. Nem sempre o que é o certo é o melhor para mim. Dilema criado por nós em nome da ordem e da moral, meros conceitos abstractos, palavras pesadas, não gosto.
A vida é como é. A verdadeira liberdade só pode existir no pensamento, em nós. Não no dia-a-dia, movimento rotineiro, encenamos personagens, estão todas em nós, não estamos em nenhuma. Nunca totalmente. Simples traços modestos. É um poder estranho, podemos ser qualquer pessoa mas não podemos ser nós. É assustador, tenebroso, maquiavélico...
Sei uma parte do amanhã. A prisão do emprego, as contas, as dívidas, as responsabilidades, o crédito, a imagem, e não o quero. Nada me faz querer dormir, não quero acordar, quero que seja sempre hoje. Estão a bater à porta. Quem será?
«Mário?»
«Sei que tentaste ligar-me, mas precisei de pensar um pouco.»
«Querias enlouquecer-me? Mas ainda bem que chegaste... Tenho algo a confessar-te, é melhor entrares.»
«O teu pai não está em casa?»
«Não, já saiu para o restaurante. Vamos para o meu quarto.»
«Sei o que vais dizer, prefiro ser eu a falar do assunto.»
«Não, deixa-me falar! Eu sinto necessidade de falar! Eu já sei que tu sabes...»
«Sim, é verdade. Eu consegui sentir isso, quando estivemos juntos pela última vez, anteontem. Senti que já sabias, o teu silêncio e o teu olhar disseram tudo...»
«Eu também senti que tu já sabias, que eu sabia. Ficámos calados... Não tenho conseguido pensar noutra coisa, estou tão triste... Dás-me o teu abraço?»
«Desculpa-me, eu sei que errei.»
«Tu? Erraste? Não! Tu não! Fui eu que errei! Sou egoísta. Deveria amar-te melhor. Mário gosto muito de ti... amo-te... »
«Eu também te amo muito... meu amor...»
«Deveria ter tido forças para contrariar o meu pai, os meus instintos, e não tenho! Não valho nada...»
«Não chores... Sabes que não suporto ver ninguém chorar!»
«Deixa-me chorar! Eu odeio-o! Odeio-o por não conseguir odiá-lo!»
«Vá, acalma-te... Eu estou aqui...»
«Não me deixes!... Nunca pensei dizer uma coisa destas! Mas, não me deixes... Não me deixes Mário... Pelos menos neste momento...»
«Eu não quero deixar-te, amo-te tanto Helena... Tanto! Se tu soubesses.... O que aconteceu entre mim e o Filipe foi apenas...»
«O quê?»
O conto Hoje serviu de ponto de partida para o romance de dia e de noite.
O homem da vida de Catarina
O actor Alexandre Silva foi o seleccionado para representar Artur, o grande amor da vida da Catarina. Artur, filho de uma chinesa e de um português, viveu a infância e juventude em Macau. Conheceu Catarina na Expo'98.
Passara o Verão inteiro a convencer o Rodolfo a autorizar-me a ir à exposição, nem que fosse simplesmente por um dia, constatada a sua indisponibilidade em acompanhar-me. O dinheiro, o poder e o controlo estão inegavelmente em primeiro lugar, para o homem que se diz meu pai.
Apesar do mau feitio, enfim, cedeu, mas na condição de ser escoltada pelo Carlos, o motorista. Convidei a Isabel, a minha melhor amiga, e partimos ainda de madrugada. A Isabel estava radiante por chegarmos à exposição num Bentley Mulliner, concordando com a imposição do Rodolfo. Quando chegámos, por volta das nove da manhã, as filas de visitantes eram imensas. Que horror! Teria de ficar à espera! Pedi ao Carlos que fosse comprar uns bancos para esperarmos sentadas.
(...)
Com o Artur começou assim, eu olhava para ele e ele, por sua vez, olhava para uns panfletos que trazia nas mãos, quando os olhares se cruzavam, eu desviava a atenção para a Isabel. Havíamos ficado por aqui e pensei que não tornaria a vê-lo, seria como tantos outros olhares ocasionais e furtivos surgidos num aeroporto, no metro, nos semáforos, num intervalo do cinema, da ópera ou do teatro. Clandestinos, sem uma planificação antecipada.
Excertos de de dia e de noite
sábado, 28 de junho de 2008
Lídia Jorge

Naquele momento pensei que as coisas vão começar a acontecer. A gente não sabe qual a natureza nem a amplitude delas mas tem de estar cá para ver, para sentir, criar e reproduzi-las.
LÍDIA JORGE, O Jardim sem Limites
Escolhi esta frase do obra O jardim sem limites de Lídia Jorge, porque serve de introdução à história de Catarina. A minha admiração por esta escritora é imensa, ao ponto de ter escolhido fazer um trabalho sobre ela para a cadeira de Seminário e Monografia da licenciatura em Língua e Cultura Portuguesas.
Escolhi estudar o romance O vale da paixão, por ser o meu preferido da Lídia. Este trabalho possibilitou um encontro com a escritora, que após nos termos conhecido no Fundão, fui até sua casa em Lisboa para conversarmos sobre a minha investigação académica. Uma das minhas descobertas mais valiosas foi que O vale da paixão era para ter o título de A manta do soldado.
Se já admirava incomensuravelmente a obra de Lídia, mais fiquei a admirá-la. Lídia é uma mulher especial, rara como algumas pedras valiosas, tendo conseguido desenvolver um estilo próprio na escrita. Na oralidade, é encantadora na forma como se expressa. É daquelas pessoas que gosta de refletir e de deixar os seus pensamentos seguirem sem rumo. Foi inesquecível vê-la e ouvi-la.
A primeira fase da escrita do de dia e de noite aconteceu durante este trabalho. Ou seja, num período em que li quase todas as obras publicadas de Lídia, portanto as influências deverão ser imensas. De qualquer modo, tenho a perfeita noção que não posso comprar as obras primas da Lídia com o meu romance ligth... De qualquer modo, foi importante ler livros escritos por uma mulher, na medida em que estava a escrever um livro sob uma perspetiva feminina.
O Sol
No princípio, o Sol era bem maior do que é actualmente e completamente vermelho. Porém, pouco a pouco começou a contrair-se, a ficar amarelo e a aumentar a sua temperatura interior. Várias civilizações do mundo o elevaram ao estatuto de deus. Basta recordar os egípcios, os maias, os incas, os astecas e não só. O Sol sempre foi respeitado pelo homem. Um deus, ele sim criador, fonte de vida e também de destruição. Uma estrela a cento e cinquenta milhões de quilómetros, e cento e nove vezes maior do que a Terra.
Tenho por hábito ser minuciosa e saber pormenores sobre os mais diversos assuntos. Algumas pessoas dizem que sou uma exibicionista do conhecimento, mas trata-se de uma particularidade da minha personalidade que não consigo alterar.
Excerto de de dia e de noite
Musas inspiradoras: Nelly e Helena
Tenho o hábito de pensar em celebridades para dar corpo às minhas personagens. No caso da Catarina, foi algo insólito porque imaginava-a como sendo a Nelly Furtado em algumas situações e noutras como a Helena Christensen.
A Nelly surgia nos momentos em que a Catarina perdia as estribeiras e tinha atitudes implusivas ou quando era necessário tomar uma atitude, mesmo que não fosse a mais adequada...

A Helena aparecia mais nos momentos em que Catarina estava triste, deprimida ou simplesmente serena e feliz com a vida. Creio que representa o lado mais frágil e sensível da personagem.
Estas duas belíssimas meninas fazem parte da construção da personagem Catarina e devo confessar que foi muito agradável tê-las como musas inspiradoras.
Estrura da obra
Abertura
Livro Primeiro: O Nascer do Sol
I - Noite de insónia
II - A revelação do Artur
III - Uma decisão importante
IV - Estratégia arriscada
V - Jogo e Sedução
VI - Compaixão por Filipe
VII - A reconciliação
Conto: Quando Nada Mais Parecia Existir
Livro Segundo: A Lua e as Estrelas
I – Mentira necessária
II – A verdade magoa
III - Espírito de vingança
IV – Amar incondicionalmente
V - Uma mulher com dois homens
VI – Noivado inesperado
VII – A partida de Artur
VIII – A Quinta da Lua
IX – A iniciação de Filipe
X – No Algarve em Agosto
Conto: Em Nome da Liberdade
Livro Terceiro: O Pôr do Sol
I – Uma viagem faz milagres
II – O regresso de Isabel
III – Cocaína e cerejas
IV – O Casamento
Encerramento
Livro Primeiro: O Nascer do Sol
I - Noite de insónia
II - A revelação do Artur
III - Uma decisão importante
IV - Estratégia arriscada
V - Jogo e Sedução
VI - Compaixão por Filipe
VII - A reconciliação
Conto: Quando Nada Mais Parecia Existir
Livro Segundo: A Lua e as Estrelas
I – Mentira necessária
II – A verdade magoa
III - Espírito de vingança
IV – Amar incondicionalmente
V - Uma mulher com dois homens
VI – Noivado inesperado
VII – A partida de Artur
VIII – A Quinta da Lua
IX – A iniciação de Filipe
X – No Algarve em Agosto
Conto: Em Nome da Liberdade
Livro Terceiro: O Pôr do Sol
I – Uma viagem faz milagres
II – O regresso de Isabel
III – Cocaína e cerejas
IV – O Casamento
Encerramento
O blogue sobre o livro
Decidi, após um longo tempo de reflexão, criar um blogue sobre o meu romance de dia e de noite, lamentavelmente, ainda por publicar. Irei falar sobre tudo o que diga respeito à excitante história de Catarina, desde o processo de construção das personagens e enredo a músicas que tiveram a importante função de inspirar-me.
Tudo começou a partir do conto Hoje, vencedor do 1.º prémio num concurso literário organizado pelo PortUBI, núcleo de estudantes de Língua e Cultura Portuguesas da Universidade da Beira Interior, no já longuínquo ano de 2001. Decidi dar continuidade à história, considerando os rasgados elogios feitos por colegas e professores. Crente de ter vocação para a criação de histórias ficcionais, dediquei-me durante horas, dias e meses e trabalhar no romance. Enviei vários exemplares para editoras e muitas nem tiveram a consideração de responder. O que me fez considerar a possibilidade de arrumar as canetas e os rascunhos numa gaveta e deixar a escrita para quem sabe!
Numa espécie de última tentativa, vou tentar saber a opinião dos cibernautas!
Todas estas peripécias serão desenvolvidas ao pormenor neste blogue!
Visitem-no sempre que possível e deixem perguntas! Terei todo o gosto em responder!
Tudo começou a partir do conto Hoje, vencedor do 1.º prémio num concurso literário organizado pelo PortUBI, núcleo de estudantes de Língua e Cultura Portuguesas da Universidade da Beira Interior, no já longuínquo ano de 2001. Decidi dar continuidade à história, considerando os rasgados elogios feitos por colegas e professores. Crente de ter vocação para a criação de histórias ficcionais, dediquei-me durante horas, dias e meses e trabalhar no romance. Enviei vários exemplares para editoras e muitas nem tiveram a consideração de responder. O que me fez considerar a possibilidade de arrumar as canetas e os rascunhos numa gaveta e deixar a escrita para quem sabe!
Numa espécie de última tentativa, vou tentar saber a opinião dos cibernautas!
Todas estas peripécias serão desenvolvidas ao pormenor neste blogue!
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