domingo, 6 de julho de 2008

O vestido de noiva de Catarina


Revoltou-me ter de ser acompanhada pelo Rodolfo, mas não houve como evitar esse ritual, pois só iria fazer com que surgissem especulações desnecessárias. Nada há nada como fingir que está tudo perfeito.

Pisei o tapete encarnado ao som de uma versão para piano de Lascia ch’io pianga, uma ária da ópera Rinaldo de Haendel, uma das minhas músicas preferidas. Comove-me sempre.




Excerto de dia e de noite.

O livro tem arte?



«Foi a minha irmã Joana que o pintou, mas não é original, é uma cópia do quadro O Que a Água me Deu, da Frida Kahlo, uma pintora mexicana.»

Excerto de de dia e de noite.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Abertura

Os brilhantes raios solares hesitavam em romper a melancólica e solitária escuridão que cercava uma majestosa casa próxima do mar. Um alto e assustador rochedo formava um muro imponente assinalando uma estranha fronteira natural, o horizonte era quebrado por montes fragosos e irregulares, amendoeiras cinzentas e arbustos silvestres. O oceano escondia-se por detrás, quase sem darmos por ele. Como se o Atlântico não existisse.

Sentia-se a brevidade do nascer do dia, os ponteiros dos relógios continuavam numa marcha interminável em círculos e, mesmo que Catarina o quisesse, nada os poderia deter. As tonalidades do céu alteravam-se vagarosamente, sem urgência, permitindo que corpos celestes distantes deixassem de ser visíveis. Como se as estrelas não existissem.

A casa cercada por um longo e articulado velado parecia adormecida, silenciosa, sem rumores em parte alguma, mas Catarina nos seus aposentos circunscritos despia um vestido Nina Ricci cor-de-rosa em chiffon que a cobrira durante o dia anterior. Caminhava pelo quarto, impaciente e nervosa, até por fim descer as longas escadas de madeira cobertas por um tapete azul-de-rei, sem ruídos, e saiu para o jardim atraída até à piscina. Desceu os degraus e mergulhou delicadamente. Estavam mais pessoas na casa, dormiam profundamente. Como se Rodolfo e Lila não existissem.

Catarina estava desperta, de olhos bem abertos dentro de água, sem entender a motivação dos sentimentos que a moviam, sem compreender as leis dos homens e da natureza, incapaz de considerações judiciosas ou de se preocupar com o cloro. Submersa não significava absolutamente nada. Era apenas um ser frágil com falta de oxigénio, tentando aguentar tanto quanto possível sem respirar. Após expirar o ar que tinha dentro de si pelo nariz, provocando dezenas de bolinhas à sua volta, bateu as pernas para chegar à superfície e conseguir inspirar novamente. Olhou estaticamente para o céu durante longos instantes até ser despertada por cantos de aves. Decidiu recolher-se aos seus aposentos, sentindo um estranho chamamento, quase divino. Subiu os degraus azuis da piscina, as escadas da casa, deixando marcas da sua passagem, e regressou ao quarto sem olhar para trás. Como se as pegadas não existissem.

Gotas de água percorriam verticalmente os longos cabelos morenos ondulados, a pele suave e clara, numa descida rápida e vertiginosa até atingirem o chão. Ficou imóvel a acompanhar manifestações gravitacionais, a observar a competição das partículas umas com as outras, aguardando que todas elas abandonassem o seu corpo. Aproximou-se do biombo em mogno trabalhado, passou os longos e finos dedos pelo bordado em seda, e decidiu escrever a sua história.

Como se a ficção não existisse.


Abertura do romance de dia e de noite.

Aprende-se alguma coisa com este livro?

No dia seguinte, ficámos ao corrente de uma nova teoria: A Teoria da Velocidade Variável. Teoria essa defendida e apresentada por um português radicado em Londres, de nome João Magueijo, que contesta a Teoria da Relatividade de Einstein.

Segundo ele, a velocidade da Luz não é lenta e constante, variando segundo o Tempo e o Espaço. Por outras palavras, a Luz seria mais rápida no início do Universo e a velocidade da mesma aumenta quanto mais compactos forem os objectos dos quais estiver aproximada.


Excerto de de dia e de noite.

Beatriz, a mãe de Catarina


A musa inspiradora para a personagem Beatriz foi a actriz brasileira Ana Paula Arósio.


«Ao longo da vida, a Beatriz só fez o que bem entendeu. Aos quinze anos apaixonou-se por um homem casado de trinta e sete. Apaixonaram-se perdidamente e viveram uma relação às escondidas de todos. Mas, como deverás saber, mais tarde ou mais cedo a verdade surge e o teu avô Grado Vicente descobriu o caso romântico. Se não a matou, foi porque não calhou. Isto porque a tua avó Lídia sugeriu que a mandassem para o Ramalhão como aluna interna. Tudo parecia voltar à normalidade, até o teu avô descobrir que eles continuavam a encontrar-se nas tardes de quarta-feira. Furioso, mandou espancar o tal homem, creio que se chamava José Martins.»

(...)

O Rodolfo saiu agora de casa, foi para o hotel. A morte da mamã modificou-o, vive com remorsos, sabe que não a fez feliz. Batia-lhe. Recordo os seus gritos de apelo. Agarrava-me às pernas dele e era colocada no meu quarto. Batia-lhe mais. Odiava-o. Ninguém podia ouvir-nos. Apenas a Lila, a cozinheira.


Excertos de de dia e de noite.

O livro tem drogas?

«Obrigada... Amo-te por não precisar de explicar-te tudo.»

«Tens as pupilas muito dilatadas! Andaste a drogar-te?»

Perante as evidências não houve possibilidade de contestar. Assumi, porque seria incapaz de mentir. Ouvi um extenso sermão de cabeça baixa e respondi-lhe que aquela era eu. Abraçou-me com força e disse que não suportaria a hipótese de me acontecer algo de terrível. Não queria perder-me. Disse que me amava.


Excerto de de dia e de noite.

D. Maria Inês, avó de Catarina


A referência para a avó paterna de Catarina foi a Rainha Isabel II de Inglaterra.

«Estou a ficar sem rede! Não estou a ouvir-te bem!», diz sempre isto quando o assunto não lhe interessa, certo dia apanhei-a quando liguei para o fixo. «Vou mandar o Carlos para trazer-me a jarra!», acrescentou apressadamente.

«Não estou no Palace Deco!»

«Não? Porquê?»

«Tirei uns dias para repousar. Ultimamente tenho andado exausta», justifiquei-me.

«Fazes bem. Conheces a minha opinião, considero um absurdo essa teimosia de trabalhares. Uma mulher de boas famílias não trabalha, e faz um mal terrível à pele! Olha o meu exemplo, durante toda a vida nunca apanhei Sol. Faz pessimamente mal e envelhece imenso! Não entendo essa coisa moderna de as pessoas se bronzearem, ficam castanhas, parece que não tomam banho, que estão sujas! Que imagem decadente... Poderias aproveitar e vir visitar-me.»

(...)

«O que significa estares numa situação em que poderás perder o controlo. Tem cuidado, os homens sabem tirar partido de uma mulher ingenuamente apaixonada. Não dês aquilo que não possas receber, em caso algum. Tens de conseguir que ele to dê sem precisares de pedir. Uma mulher nunca deve pedir nada, mas deve sempre ter tudo.»


Excertos de de dia e de noite.

O livro tem religião?


«Na última vez que estive em Fátima, gastei uma fortuna em velas para que fizesses um bom casamento. Já estás na idade...»
«O que poderei fazer, se é esta a vontade de Deus?», disse num tom conformista.
«Não sejas irónica, bem sei que não vais à missa! Nem imaginas o desgosto que me provocas!»
«Avó, já tivemos esta discussão por diversas vezes.»
«Se Deus não existe, como justificas os milhões de crentes?»


Excerto de de dia e de noite

Lila, a cozinheira


Como referência para a personagem Lila, a cozinheira de Rofolfo, pai de Catarina, a actriz Lídia Franco.

Chegada aos meus aposentos, lembrei-me de ligar o telemóvel, apenas uma mensagem de voz da Lila:

Menina, telefone-me assim que possível. A Dona Maria Inês ligou para aqui a perguntar por si. Disse estar em Sintra e estranhou a sua ausência, porque a menina disse que ia para lá. Perdoe-me a minha ousadia, mas deduzi que estivesse com o menino Artur e menti à sua avó, dizendo-lhe que a menina estava a dormir e que só partia amanhã. Peço-lhe perdão por ter lido a carta que deixou ao seu pai, mas foi a pedido dele que o fiz por telefone. Estou muito nervosa, porque tenho medo que o seu pai descubra e não sei o que poderá acontecer. Telefone-me assim que possível. Um beijo da Lila.

O quê? Maldita seja a Dona Maria Inês, por que razão tinha de fazer das suas? Pedi-lhe encarecidamente para que não fosse a Sintra. É teimosa como só ela sabe ser. E agora? Vai deitar por terra todos os meus planos! Calma, só tenho de parar um pouco para raciocinar convenientemente. Em primeiro lugar, vou telefonar de imediato para a Lila.

«Lila?»

«Menina, até que enfim telefona! Eu nem consegui dormir descansada esta noite. A Dona Maria Inês já ligou outra vez para aqui queixando-se de que a menina tinha o telemóvel desligado.»

«Meu Deus! O que é que a avó disse?»

«Queria saber se contava consigo para almoçar.»

«E a Lina disse-lhe o quê?»

«Que a menina tinha tomado um comprimido para dormir, pois sentia-se pessimamente ontem à noite e que ainda estava a repousar.»

«Fez bem, nem sei como agradecer-lhe... E o Rodolfo?»

«O seu pai pensa que a menina está em Sintra, mas pode descobrir o inverso a qualquer momento. Estou tão nervosa com tudo isto que já tomei dois calmantes!»

«Tenha calma, vou telefonar aos dois, e fique descansada que conseguirei resolver este percalço.»

«Deus queira, menina! Deus queira!»

«Quererá, com toda a certeza. Daqui a pouco torno a ligar-lhe.»

«Com certeza, menina, aguardarei o seu telefonema.»

«Obrigada, Lila, estou-lhe muito grata.»

«Não tem de agradecer, por si sou capaz de tudo!»


Excerto de de dia e de noite.

O livro tem sexo?

Acomodou-se na cama e observou os meus movimentos, olhando-me intimamente.

«És tão parecida com aquela modelo, a Helena... Helena Christensen! Já te tinha dito o quanto te achava bonita? Poderias ter pousado para Botticelli ou Rossetti...»

Para boa entendedora meia palavra basta, é sabido. Senti que o Lourenço queria o mesmo que eu, ambos transpirávamos de desejo. Dirigi-me até às proximidades da sua boca sem o beijar. Desapertei-lhe o cinto, desabotoei-lhe o botão, abri o fecho-ecler e puxei as calças até aos joelhos. Cumprimentei-lho com uma mão, apertei-lho, desci com os lábios até ao umbigo e mordi-lho.

(...)

Inspirei-me nuns vídeos que o Rodolfo esconde no roupeiro, e consegui convencer o Rui a um prolongamento. Abracei-o vorazmente, confiante no meu desempenho aplicado. Tudo correu lindamente e não senti aqueles horrores que por diversas vezes escutara.

(...)

Quando finalmente adormeci, passadas tantas horas sem o devido descanso, tudo se renovou no mundo dos sonhos. Vi-me em cenas de sexo escaldante com o Artur e o Filipe, o que me deixou altamente perturbada e envergonhada quando o recordei.


Excertos de de dia e de noite.

Filipe, o amigo de Catarina e de Artur


A referência física para a personagem Filipe, foi o actor Brad Pitt.

Despimo-nos e saltámos para dentro da piscina a brincar como crianças, um regresso à infância, vivendo uma felicidade instantânea, momentos de ternura e carícias, atirando água uns aos outros. Parecíamos uns tontos!

Inesperadamente, chegaram os pais do Filipe, três irmãs, três cunhados, oito sobrinhos, uma cozinheira e uma empregada. O Dr. Magalhães aproximou-se da piscina e disse:

«Surpresa! Com esta não contavas tu!»

Os sobrinhos começaram a despir-se a toda a velocidade e já vinham preparados para mergulhar. De imediato, começaram a saltar para dentro de água.

«Pai, nós estamos nus! Podias passar-nos as toalhas? Depressa! Antes que a mãe chegue!», pediu o Filipe aflito.

«Ela deve estar a retocar a maquilhagem, bem sabes que a Mári gosta de estar sempre no seu melhor!», disse o Dr. Magalhães num tom brincalhão.

«Tio, não se vá embora! Brinque connosco!», dizia uma amorosa sobrinha desdentada.

«Ó minha querida, o tio agora não pode! Amanhã brincaremos o dia todo, prometo!»


Excerto de de dia e de noite

O livro tem poesia?

um sem sorrisos
dois pois ambíguos

para além da cor
estéril
sem pontuação
corro em mim amor
vago
sem direcção

fico entre o ser
sem nada para dizer

resisto...
insisto...
desisto...

Abrigo?

no terceiro desejo
no segundo tempo
no primeiro beijo

Paro! Escuto!

no sexto sentido
na quinta-feira
no quarto vazio

sonho-me...
vivo-me...
expando-me...

para ti.

em loucuras simples
em palavras minhas
em fantasias tuas

sinto-te...
vejo-te...
espero-te...

partida sem meta
a palavra desperta

na nona porta
na oitava sinfonia
na sétima arte

peço a tua pele
dou a minha água

perdemo-nos...
encontramo-nos...
adormecemo-nos....

o sonho teimou em aproximar-se
os gestos do corpo fizeram por seduzir
num silêncio incapaz de se ouvir
num longo beijo transparente

para além do mar
dois corpos cruzados
um.


Publicado em de dia e de noite

O pai de Catarina


Como referência física para a personagem Rodolfo, pai de Catarina, tive o Rei Juan Carlos I de Espanha.

O Rodolfo é o quarto Visconde da Galé e, embora não vivamos num regime monárquico, para ele, e para muitas outras pessoas que conheço, é como se vivêssemos. Eu não consigo ser assim, por não ter coragem de assumir um mero simbolismo, uma representação do passado ou uma maneira de estar familiar. Sei que sou fraca por ceder à derrota de mil novecentos e dez, mas é impossível esquecer o país republicano em que estou e viver uma realidade que para muitos nem existe. Para o cidadão comum, o título do Rodolfo é motivo de paródia, o que me magoa e indigna.

(...)

Estou exausta, Rodolfo! Exausta dessa sua tendência para controlar a minha vida! Percebe? Não sou nenhuma criança! Já tenho vinte e três anos! Quantas vezes terei de o repetir?», defendendo-me com espontaneidade e saturação.

«Então, por que razão não ages como um adulto?», perguntou sarcasticamente.

«Não é o Artur!», afirmei convicta.

«Prefiro que fiques calada, não me desiludas mais...»

«Por que motivo não me permite o direito de viver a vida de acordo com a minha vontade?»

«Para além de seres minha filha, és uma Azevedo Mendonça. Bem sabes que tens determinadas obrigações e, mais importante ainda, deves respeito ao nosso passado, pois foi com muito custo que a nossa família se distinguiu e atingiu o estatuto de nobre. Estranha-me que uma mulher com as tuas capacidades não consiga perceber isso.


Excertos de de dia e de noite.

A Amélia

O Rodolfo chateava-se por ser tão afeiçoada a uma cadela. Inclusivamente, cheguei a pensar que havia sido ele a envenená-la, mas uma semana depois trouxe-me uma gatinha Maine Coon com uns lindos olhos dourados. Diz-se que a sua raça é descendente de gatos da horrivelmente decapitada Maria Antonieta, que os terá enviado para os Estados Unidos da América para que escapassem à ira dos revoltosos.

A Amélia é excessivamente dependente, sempre a pedir mimos, afagos e dorme comigo. Por vezes encontro-a nas posições mais caricatas, o que me diverte de sobremaneira. Adora passear-se no jardim e escalar as amendoeiras. Agora está mais gorda, a ficar velhinha, apreciando o Sol ao fim da tarde numa pose esfíngica e nobre. Só come comida em lata, e não pode ser de uma marca qualquer. Sempre foi mal habituada, mimo-a com os melhores manjares para gatos e brinquedos.

Não sei viver sem ela.

(...)



(...)

Os meus olhos estavam pesadíssimos, mas a imagem do Artur não conseguia desaparecer da minha mente, fazendo-me ficar desperta. Estava com uma enorme dificuldade em perceber o que me levava a querer tê-lo para mim. Por entre as dobras do lençol poderia tentar encontrar algumas respostas, ou talvez se escondessem por entre os dedos dos meus pés. Definitivamente, não havia nada de racional entre o amar alguém, as suas consequências incertas e a impraticabilidade da minha vontade. Adormeci abraçada à Amélia.


Excertos de de dia e de noite

O livro tem palavrões?

Ao cruzar-me com a Telma, no dia seguinte, precisei de chorar e de pedir desculpas pelo sucedido. Se cheguei a deitar-me com ele na cama, foi porque estava imbecilmente apaixonada. Se o fiz, foi porque acreditei nas suas palavras e promessas. Falsas, sem qualquer valor, como as de todos os rapazes. A Telma levantou a mão direita e agrediu-me com força.

«Pára, Catarina! Não sejas mentirosa! Tu e a Isabel não passam de umas putas! O Rui contou-me toda a verdade e eu acredito nele! Eu só não espalho a notícia pela escola porque não quero ser gozada por todos. Agora ouve com atenção este aviso: voltas a aproximar-te do Rui e juro que te atiro ácido sulfúrico para a bela cara que tens! Cabra de merda!»

Fiquei em estado de choque. Naturalmente.


Excerto de de dia e de noite