Os brilhantes raios solares hesitavam em romper a melancólica e solitária escuridão que cercava uma majestosa casa próxima do mar. Um alto e assustador rochedo formava um muro imponente assinalando uma estranha fronteira natural, o horizonte era quebrado por montes fragosos e irregulares, amendoeiras cinzentas e arbustos silvestres. O oceano escondia-se por detrás, quase sem darmos por ele. Como se o Atlântico não existisse.
Sentia-se a brevidade do nascer do dia, os ponteiros dos relógios continuavam numa marcha interminável em círculos e, mesmo que Catarina o quisesse, nada os poderia deter. As tonalidades do céu alteravam-se vagarosamente, sem urgência, permitindo que corpos celestes distantes deixassem de ser visíveis. Como se as estrelas não existissem.
A casa cercada por um longo e articulado velado parecia adormecida, silenciosa, sem rumores em parte alguma, mas Catarina nos seus aposentos circunscritos despia um vestido Nina Ricci cor-de-rosa em chiffon que a cobrira durante o dia anterior. Caminhava pelo quarto, impaciente e nervosa, até por fim descer as longas escadas de madeira cobertas por um tapete azul-de-rei, sem ruídos, e saiu para o jardim atraída até à piscina. Desceu os degraus e mergulhou delicadamente. Estavam mais pessoas na casa, dormiam profundamente. Como se Rodolfo e Lila não existissem.
Catarina estava desperta, de olhos bem abertos dentro de água, sem entender a motivação dos sentimentos que a moviam, sem compreender as leis dos homens e da natureza, incapaz de considerações judiciosas ou de se preocupar com o cloro. Submersa não significava absolutamente nada. Era apenas um ser frágil com falta de oxigénio, tentando aguentar tanto quanto possível sem respirar. Após expirar o ar que tinha dentro de si pelo nariz, provocando dezenas de bolinhas à sua volta, bateu as pernas para chegar à superfície e conseguir inspirar novamente. Olhou estaticamente para o céu durante longos instantes até ser despertada por cantos de aves. Decidiu recolher-se aos seus aposentos, sentindo um estranho chamamento, quase divino. Subiu os degraus azuis da piscina, as escadas da casa, deixando marcas da sua passagem, e regressou ao quarto sem olhar para trás. Como se as pegadas não existissem.
Gotas de água percorriam verticalmente os longos cabelos morenos ondulados, a pele suave e clara, numa descida rápida e vertiginosa até atingirem o chão. Ficou imóvel a acompanhar manifestações gravitacionais, a observar a competição das partículas umas com as outras, aguardando que todas elas abandonassem o seu corpo. Aproximou-se do biombo em mogno trabalhado, passou os longos e finos dedos pelo bordado em seda, e decidiu escrever a sua história.
Como se a ficção não existisse.
Abertura do romance de dia e de noite.
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