As horas de sono foram breves, a cama está fria e usada. Quase nem descansei, não estou bem, nada bem. Fecho os olhos e só encontro palavras. Se encontrasse uma solução perderia os meus problemas. Não gosto de ficar assim, ausente de uma realidade tangível, entre pensamentos desconexos e abstractos, com fraco conteúdo e pouca razão de ser. Não gosto de pensar intensamente, faz-me mal. As palavras destroem-me e fazem o que sou. Infeliz antagonismo. Infeliz estorvo.
Não sei se existe um pensamento independente da linguagem, ou se a linguagem é o nosso pensamento. Sei que o pensamento e a expressão não são uma só coisa, porque existem milhares de línguas. Não sei quando começámos a falar, nem a sua enigmática origem.
Debato-me se a vida seria simplificada na ausência destes sons mesclados, contariam os actos, as pessoas. Tem dias que desprezo o progresso, de todo o tipo, e ocorre-me a ideia de fugir para o mato e lá habitar numa pequena cabana, ou gruta, semeando milho e alimentando-me de raízes. Mas não sou capaz., é como um vício, sabemos que nos faz mal e mesmo assim continuamos sem deixar de consumi-lo, ambicionando cada vez mais e mais, e sem saber bem porquê, ou para quê. É doentio e absurdamente vazio, perco a crença em mim e já nem sei o que sou, ou no que me fiz. No que poderia ser.
Sei a justificação deste meu abandono, não a quero aceitar. Sinto um vínculo no meu peito, e incomoda-me. O medo comprime-me e não tenho alento para erigir o que resta de mim. Dramaticamente. Queria olhar de novo para o reflexo no espelho e sorrir, esboçar um simples sorriso. A angústia inexorável em perder-me, desilude-me. Uma vez mais repito que não gosto de estar assim, não é este o meu conceito de existir. Nunca foi.
De manhã, vesti-me sem atenção e corri veloz atravessando a cidade de uma ponta à outra. Encontrei-a destruída, cheia de buracos, pó, tornando o ar irrespirável. É como se estivesse a decorrer uma operação, cruelmente aberta e destruída. Não gostei.
Um rapaz caiu com a motorizada à minha frente, e numa explosão de indolência e indiferença não soube como reagir. Não consegui parar e prestar-lhe o meu importantíssimo auxílio naquela trágica situação. Algo me impediu de abrandar a velocidade. E continuei a fugir, a fugir, a fugir, até um lugar. Um lugar a tocar o Mar.
Olha para a paisagem... Somos tão pequenos neste mundo. Só quando andei pela primeira vez de avião tive noção da nossa insignificância. Lá de cima não existe distinção, somos todos iguais, constantemente em movimento e atarefados... Ao mesmo tempo é como se despertasse para outra realidade, e visse as coisas como elas realmente são! Mário falou como um budista iluminado, em entender o mundo como ele de facto é. A nossa insignificância na grandiosidade universal. Parece um pensamento destituído de grande interesse, porém a vida é um mistério e até o desvendar não penso conseguir ver as coisas como elas são.
As religiões abordam a fantasia de um modo natural, falam de um Deus criador, um Deus falador e pensante que através da Palavra criou a matéria. Primeiro tivemos o signo e como consequência o objecto. É como se já existissem antes de serem criadas, uma árvore, uma estrela, uma lagoa, uma mulher... E isso não consigo entender, faz-me confusão pensar que fomos criados nestas condições. Faz-me confusão venerar um Deus que me criou à sua imagem sem questionar a sua existência. Faz-me confusão venerar um Deus que para mim não é o Deus.
Perturba-me pensar na possibilidade de existir uma força superior aos deuses, criados pelo Homem. Talvez a fusão de certos elementos, ou gases, surgidos do vazio, superior a palavras ou imagens... Mas não sei.
No momento em que o Mário me mostrou aquele lugar elevado, próximo de um farol, a tocar o Mar, só quis abraçá-lo e pensar em como o amava. Amo o seu carinho pelo milagre da vida, por pequenos pormenores que nos escapam no dia-a-dia. Ele lembra-mos, e eu gosto. Gosto do encantamento que sinto por caminhar ao seu lado, por o ouvir falar ininterruptamente sobre a evolução da espécie humana e a nossa intrigante existência. Gosto de estar ao pé dele.
Quando olhas para o céu o que vês? Perguntou-me nessa noite. Na mesma noite em que me ofereceu o Vespertine da Björk.
Vejo o céu, as estrelas... algumas nuvens... Hoje não há Lua... Respondi ingenuamente sem entender o que ele pretendia de mim, provocando uma reacção brusca.
Por acaso até há! Ela anda por aí, algures, nós é que não a conseguimos ver! A luminosidade é apenas aparente, apesar do destaque na imensa escuridão do céu, numa noite de Lua cheia, é o Sol que a protege e ilumina. Casaram-se há muitos anos, mas de vez em quando discutem, como todos os casais modernos.
O Mário faz-me rir imensas vezes. Está provado cientificamente que nos sentimos atraídos por pessoas que nos façam rir. E rir faz-nos bem, altera a nosso batimento cardíaco, a pressão sanguínea e a actividade cerebral.
Mas só consegues ver isso? Olha outra vez! Olha para além das nuvens, das estrelas!... Espera! Faz antes assim, fecha os olhos e imagina todo o sistema solar. Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Úrano, Neptuno, Plutão...
Alheei-me de tudo e visualizei a nossa galáxia. É esquisito... Não sei explicar... Disse após alguns instantes, elevando as mãos à cabeça. Estás a assustar-me!
O Mário começou por explicar-me que o Universo começou do nada, com o Big Bang. Era uma bola de fogo, quente e densa, que deu origem ao tempo e ao espaço há cerca de doze a quinze mil milhões de anos. Era o Ovo Cósmico com um raio de apenas cento e trinta milhões de quilómetros. A partir desse primeiro instante o Universo tem-se estendido como um longo tapete bordado de estrelas e galáxias.
Nos confins do espaço estão as estrelas primogénitas que nasceram pouco depois da primeira manifestação do Universo. É lá, a biliões de anos luz, que está o nosso passado.
O Mário fez-me pensar sobre o meu lugar no meio de tudo isto. Esta enorme grandiosidade de espaço e matéria na qual eu sou apenas invisível. Perturbou-me. Perturbou-me pensar na questão do fim do Universo. Se se expande é porque tem um fim, e eu não sei como será esse fim. É como se o Universo estivesse dentro de algo eternamente vago e estéril, e questiono-me sobre a existência de mais ovos cósmicos no interior deste enorme vazio. Questiono-me sobre os limites do tempo e da vida. Questiono-me sobre o meu amor pelo Mário.
Nessa noite, escura e abafada, beijei-lhe os lábios rosados numa meiguice paciente, e receei o dia de hoje. Olhei para ele e como numa brincadeira de crianças tapei os seus olhos. O que estás a ver agora? Hesitou durante algum tempo e depois num tom quente e calmo... Já te tinha dito o quanto gosto da tua voz? Fala para mim... Diz-me o que pensas... Deixa-me ouvir a tua alma... Diz-me palavras bonitas...
Desci as minhas mãos até às suas e permanecemos de olhos fechados enquanto entoava melodias desconhecidas, evacuadas improvisadamente ao ritmo de energias mútuas que ao se fundirem numa só fizeram com que sentisse o enamoramento na minha voz. Sorri.
Senti que deixávamos o chão elevados no espaço. Flutuávamos em busca do fim do Universo sem entender o princípio do que aparentemente tem, ou não, um fim. Sem entender o nada ou o vazio.
Descemos umas escadas de madeira até à praia e ficámos deitados na areia de frente para o Mar. Nesses dias acreditava no futuro, sem dúvidas. Era meu, havia perscrutado na minha alma sem quaisquer obstáculos, e não colocava a hipótese de o perder. Havia nascido para mim, e eu para ele. Uma ruptura soava-me a uma impossibilidade cósmica.
Éramos gémeos nas mais pequenas coisas. Num sorriso, num olhar, num simples gesto de amizade. Éramos gémeos no sentir da vida, no caminhar na rua num dia de chuva, num contacto de pele permanente. Num saborear um chá com leite, e trocar um olhar cúmplice quase mágico por entre uma mordidela numa fatia de bolo caseiro, daqueles simples só com ovos, farinha e muito açúcar.
A noção da impossibilidade de um simples beijo trocado publicamente era esquecida nesses curtos instantes. Gostaríamos de poder esticar esses segundos de ignorância e vivê-los num tempo incerto.
Éramos gémeos no desejo de habitar num mundo diferente, com outras leis, outros mandamentos. Queríamos que a vida fosse mais simples, sem tantas expectativas. Vivíamos presos a uma sociedade que lamentávamos. Vivíamos presos numa apregoada liberdade. Liberdade? Qual Liberdade? Como sorriamos ironicamente ao pronunciá-la e assim mesmo nada fazíamos.
Éramos gémeos nas fraquezas, tão diminuídas quando estávamos juntos, quando ocasionalmente uma mão tocava na outra, numa mesma angústia, como a de sabermos que nunca poderíamos partilhar a mesma escova de dentes.
Aguardava sempre impacientemente para estar na presença do Mário. Os nossos encontros eram num pequeno jardinzinho situado no Largo Jacinto d’Ayet. No centro um sacerdote de bronze, Beato Vicente, em chamas, erguendo um crucifixo. Em criança não entendia porquê, mas mais tarde descobri que fora queimado em Nagasaqui, no Japão, enquanto pregava a Fé de Cristo, no século XVII. Preferiu morrer a abdicar da sua fé. É difícil não sentir uma forte emoção quando se olha para ele, preferindo a tortura e o calor do fogo a acobardar-se. Morreu por uma causa, como todos os heróis, e talvez por isso mereça ser recordado.
Quando estamos juntos parecemos isolados do resto do mundo. Trocamos poemas, alguns são originais, gosto de escrever poesia, o Mário também. Outros são de poetas portugueses, uma exigência minha. Ele é fanaticamente universalista, eu sou nacionalista. Carrego Portugal dentro de mim, do erudito ao popular, e não poderia ser de outra forma. Fundidas complementam-se e saciam as necessidades do meu espírito. As minhas limitações reservam-se a este país. Nele, os horizontes são ilimitados.
O Mário não concorda em conhecer uma única realidade. Diz que nos faz pequenos, quando as nossas manifestações podem ser universais. É louco por todos os países do mundo. Pelo passado, pelo presente, pelo futuro. Admiro a sua energia. Admiro o amor que existe dentro dele.
O silêncio deu-se numa tarde cinzenta de verão. Ontem. Porque será que as maiores desgraças dão-se em dias cinzentos? É angustiante para quem não tem a alegria de ver o Sol, ficamos perdidos sem ter nada a que socorrer, como se a luz nos acolhesse e protegesse dos perigos terrestres.
No princípio, o Sol era bem maior do que é agora e completamente vermelho. Porém, pouco a pouco começou a contrair-se, a ficar amarelo, e a aumentar a sua temperatura interior. Todas as civilizações do mundo o elevaram ao estatuto de deus. Amon, Tonatiuh, Viracocha, Surya, Re, Quetzalcoatl, Hórus, Uitzilopochtli, Aton... Um deus fonte de vida e de destruição. Uma estrela a 150 milhões de quilómetros e 109 vezes maior do que a Terra. Uma caldeira que produz uma actividade vulcânica espantosa. Actualmente, começou a transformar hidrogénio em hélio. Este fenómeno de fusão nuclear garantirá estabilidade e luminosidade. Uma protecção que só durará mais 5 000 milhões de anos.
Pensava que o mais difícil seria encontrar alguém que despertasse em mim sentimentos raros como o desejo ou a paixão. Neste arrastamento do hoje descobri que o mais difícil é mantê-los. Como tudo se perdeu nem eu sei. Talvez o tempo, talvez eu, talvez ele, talvez ninguém, ou nada. Talvez a vida seja mesmo assim.
Faltava-me uma preparação antecipada, este é daquele género de assuntos que se aprendem vivendo e não nos livros. Se calhar até os existem, nós é que os ignoramos, preferimos desconhecer, ou não os reconhecemos. A perda da inocência custa-nos muito cara e sinceramente quando mais tarde melhor. Não sei determinar a época em que a perdi. Não duvido se ainda restarem algumas sombras, ainda sou jovem e não quero acreditar no contrário.
Quando conheci o Mário dei por mim novamente a suster pensamentos românticos e a suspirar, como quem o faz quando se apaixona pela primeira vez. Regressava de Lisboa no intercidades em primeira classe. Tinha ido com uma amiga que estudava comigo no liceu, a Elisa, à Expo 98.
A Elisa é uma menina-mulher como a Penépole Cruz. Bonita de qualquer ângulo e em qualquer circunstância, mas extremamente aplicada e rigorosa na condução do seu percurso terrestre, ao contrário de mim. Deixo-me levar demasiado por estados de inércia e langor. Não é que goste, sou assim.
A Elisa diz que nos formamos a nós mesmos, da mesma forma que um escritor cria um personagem, não sei se acredito. Tem dias que sim, tem dias que não. Admito a nossa complexidade, mas recuso um ponto de vista tão simples. Se eu fosse como gostaria de ser... deixaria de ser quem sou... Se bem que isso pouca importância tem para os outros. De preferência devemos ser aquilo que esperam de nós, e não aquilo que queremos ser.
Curiosamente, eu e o Mário já nos tínhamos cruzado no pavilhão da Colômbia enquanto provávamos um café oferecido por uma rapariga sorridente.
Gostei dele quando o vi. Gostei do olhar tímido e fugidio, do contorno dos maxilares, do cabelo negro, do tom da pele, dos lábios carnudos quase em forma de coração. Gostei dele, mas não o suficiente para abordá-lo com perguntas estúpidas, não faz o meu género. Nunca fez. Posso olhar de vez em quando para alguém, fazer um certo jogo de sedução, mas jamais dou o primeiro passo. E é bizarro reconhecer o quanto detesto que o façam. Detesto quando olham fixamente para mim, num olhar guloso e perseguidor. Provoca-me um certo desprezo e asco.
Gosto quando o olhar é engenhoso, quando existe cumplicidade num não querer nada. Desejar apenas o que não vamos ter, desdenhosamente.
Com o Mário começou assim. Eu olhava para ele e ele olhava para uns panfletos que trazia nas mãos. Ele olhava para mim e eu desviava a atenção para Elisa. Havíamos ficado por aqui. Pensei que não tornaria a vê-lo. Era como tantos outros olhares ocasionais e furtivos surgidos num autocarro, no metro, nos semáforos, no cinema, num supermercado... Clandestinos, sem uma planificação antecipada.
Tornei a encontrá-lo inesperadamente no bar do combóio. Comentei com a Elisa e esta não se fazendo de rogada, e na tenacidade que lhe é característica nestas ocasiões, foi ter com ele para lhe pedir lume com um cigarro na ponta dos dedos, em pose de Simone de Oliveira. Ele não tinha, porque não fuma, e ainda lhe recomendou que não fumasse porque não era permitido fumar naquela carruagem. Ela num tom arrogante e lacónico respondeu-lhe Ah sim?, ao que justificou peremptoriamente o pedido afirmando que não poderiam trancafiá-la numa prisão por satisfazer um vício legal e, mudando de assunto como quem muda de oxigénio, perguntou-lhe o signo astrológico mostrando-se acessível e interessada. Carneiro, respondeu sorrindo para mim. Decidi aproximar-me dos dois, e sentei-me no sofá verde-alface em forma de cotovelo. És do Algarve?, perguntei-lhe. Sim, de Albufeira, e vocês? Olhei para a Elisa e começámos a rir. És de Albufeira? Que feliz coincidência! Nós também!
Para quem considerava o amor uma fantasia, foi uma descoberta. Tinha dezasseis anos, o Mário quinze. Não lamento o contrário. Fui feliz. Mesmo. Muito. O primeiro amor. Hoje tenho a certeza dos estragos de um simples erro, é como um buraco na roupa, por muito que tentemos remediá-lo já não há nada a fazer. Nada. O erro faz parte de nós mas encontramos dificuldades em perdoar. Porquê? E quando perdoamos não conseguimos esquecer, fica lá para sempre, na nossa memória, como uma daquelas marcas que fazem no gado.
Sei que o desiludi, não lhe disse nada, mas ele sabe. Se soubesses Mário gosto tanto de ti. Tanto. Se escrevesse tudo o que sinto cairia no ridículo, num barato melodrama de telenovela. É a verdade... Imaginar o toque da tua mão no meu corpo reanima-me, anima-me a alma e faz-me sorrir... É um sorriso triste, mas um sorriso vale sempre por ser um sorriso. Lembras-te? Dizias-me isto tantas vezes e eu não entendia... Como não entendia tantas outras coisas. Recordo as vezes em que permanecemos unidos. Uma ponte. Não dois. Um. Criámos um hábito e agora não sei viver sem ele. Fazes parte de mim... Sinto as pálpebras pesadas, mas não consigo dormir. Não quero! Imaginar o dia de amanhã sem ti, magoa-me. Indubitavelmente.
Ouço as primeiras pessoas a encherem as ruas, transeuntes apressados, imagino-os sinistros denotando infelicidade. Todas as manhãs são iguais com locutores de rádios a contar piadas estúpidas para extorquirem sorrisos de caras impávidas e ramelosas. Não vejo nada de mal, é admirável o esforço dedicado à causa, comigo acaba sempre por resultar.
Agora estão a passar uma música das nossas queridas Doce. Quem é que não gostava delas? Eram fabulosas. Confesso que fui fã, a minha preferida era a Lena Coelho, a morena, de voz frágil e submissa, de sorriso triste. A loira não cantava, mas isso agora nada interessa, foi um projecto excelentemente idealizado com quatro meninas bonitas. Mulheres feitas por homens, e ao gosto destes. Resultou bem, eram outros tempos. Era criança, mas lembro-me. Era um outro Portugal, mais ingénuo, puro, aberto a tudo o que vinha do exterior, ainda recordo a fase do que era bom era o que vinha do estrangeiro.
Os Estados Unidos vendiam uma imagem de felicidade aliada a electrodomésticos, roupas brilhantes e maquilhagem forte. Hoje admiro os anos 80, para muitos foi uma década de decadência, para mim foram os anos mais felizes da minha vida. Apesar de ainda não existir sei que foi forte a emoção de passar a ter dois canais de televisão, ainda a preto e branco. E quando chegou a cor? Indiscritível! Autêntico delírio. O país parou em peso! Estávamos rendidos ao consumismo e a tudo o que aparecia na televisão. Foi uma época divertida e de descoberta. As primeiras crianças educadas num ambiente de liberdade. Crianças que valorizavam pequenas coisas que actualmente são ridículas como jogar ao pião, ao berlinde, ou ao elástico. Eu faço parte do momento de transição. Havia menos competição e mais simplicidade nos actos. É o preço da evolução e do progresso, afinal, o que são estes miseráveis brinquedos comparados a um cão robotizado ou a uma consola Playstation II?
Fico feliz com o estado actual de Portugal, porque voltamos a apreciar o que é nosso. A Cultura, o Folclore, o Tradicional, o Fado ou as Marchas Populares. Por outro lado, os efeitos da Globalização são inegáveis: o consumismo, o crédito, a moral, os costumes, a moda...
Não será uma defesa nossa? Uma necessidade de definirmos uma Identidade? Algo que faça de nós portugueses? Sinceramente, por muito que reconheça o valor artístico de bandas como The Gift e Silence 4 não suporto os nomes e letras em inglês. Terão vergonha da língua de Agustina? Saramago? Lobo Antunes?...
Poderia proferir tantos outros nomes, nomes que me fazem sorrir, assim como o teu Mário. M-a-r-i-o! Cinco letras, cinco sons, cinco apelos aos meus sentidos, uma letra para cada um...
Hoje procurei-te, tens o telemóvel desligado, onde estás? Porque não atendes? Por que não falas comigo? O que está a acontecer? Sinto-me a endoidecer por dentro, sinto que este amor me está a levar para à perdição... Por muito que queira não consigo deixar de chorar. Agarrei-me a uma cadeira de joelhos, carente, abraçada a ela e verti todo o sofrimento que me está a consumir e a destruir por dentro. Preciso tanto, tanto de ti... Abandonas-me quando mais preciso... Fazes-me sentir só. Fazes com que perca toda a alegria de viver, fazes com que pense na morte. Mas eu não quero morrer. Apenas te quero a ti, meu querido, meu grande amor... O amor da minha vida...
Por que razão não ligas o telemóvel? Por que razão não falas comigo? Se soubesses como o teu desprezo me magoa e me destrói... Foges de mim? Conheço-te! Consigo sentir a tua frustração... Perdi-me, nesciamente... Quero tanto olhar para ti outra vez, pegar na tua mão, acariciá-la, beijá-la. Entupir-te de beijos, sentir o aroma do teu perfume, cheiras sempre tão bem, fresco e alimonado.
Não quero mentir-te mais, dizer que está tudo bem, quando não está. Não devo. Porém não posso dizer-te a verdade, é minha, não é tua, não fazes parte dela. Precisei de vivê-la naqueles momentos, aprender mais sobre mim, crescer, e agora preciso de ti novamente. Se isto fizesse algum sentido para ti. Não faz.
O meu pai saiu agora de casa, foi para o restaurante. A morte da minha mãe modificou-o, vive com remorsos, sabe que não a fez feliz. Batia-lhe. Recordo os seus gritos de apelo, agarrava-me às suas pernas e ele levava-me novamente para o quarto. Batia-lhe mais. Odiava-o. Ocasionalmente aparecia um vizinho. Acalma-te Quim! Tarde demais, já estava marcada, devia-lhe respeito e obediência. Eu chorava na minha cama, doía-me ouvir o bater do seu corpo nas paredes, objectos a partirem-se, o seu choro, o olhar do dia seguinte...
A tua ausência é sentida todos os dias. Faz-me falta o teu abraço, as palavras insubstituíveis de uma mãe. Um vazio que ficou na minha vida. Estou só. Queria poder erguer-me novamente e esquecer o momento trágico que estou tentar ultrapassar. A minha vida não é ficção, tudo isto está mesmo a acontecer, por muito que pareça uma mentira. As tragédias não são exclusivas da Sétima Arte ou da Literatura. Não sei se a Arte imita a Vida, ou se a Vida imita a Arte...
Entre mim e o meu pai ficou o silêncio, a vergonha dele, o meu rancor. E não gosto de pensar nisto, é triste. O meu pai tem-me feito muito mal. Ele tem essa consciência, e só eu sei o que tem acontecido ao longo destes anos. Mas não o direi, porque recuso-me a pensar no que ele é.
O meu hoje é o ontem, e tenho medo de hoje. Vou encontrar o Mário, sinto-o, sei. Dependo dele, como se dependesse de uma droga. E não sei decidir entre a verdade ou a mentira, a cobardia ou a coragem. Não sei fazer uma escolha aparentemente simples ou fácil, por ser arriscada. Há quem considere o risco sedutor e necessite dele para viver, alpinistas, bombeiros. O risco existe em torno do ser humano e há quem goste de encontrar os seus limites, descobri-los, testá-los, como um artista de circo, domador de leões ou trapezista. Os heróis arriscam, por isso são admirados e amados. Eu prefiro esperar para ver no que dá, crente no destino, sem saber se ele existe.
Exigem-nos escolhas desde muito cedo. Gostas mais do teu pai ou da tua mãe? O que queres ser quando fores grande? Ou isto, ou aquilo. Não podemos ter tudo. Porquê? Eu não gosto de escolher, nunca gostei... Não me ensinaram a escolher! Ensinaram-me como as coisas devem ser, o certo e o errado. Nem sempre o que é o certo é o melhor para mim. Dilema criado por nós em nome da ordem e da moral, meros conceitos abstractos, palavras pesadas, não gosto.
A vida é como é. A verdadeira liberdade só pode existir no pensamento, em nós. Não no dia-a-dia, movimento rotineiro, encenamos personagens, estão todas em nós, não estamos em nenhuma. Nunca totalmente. Simples traços modestos. É um poder estranho, podemos ser qualquer pessoa mas não podemos ser nós. É assustador, tenebroso, maquiavélico...
Sei uma parte do amanhã. A prisão do emprego, as contas, as dívidas, as responsabilidades, o crédito, a imagem, e não o quero. Nada me faz querer dormir, não quero acordar, quero que seja sempre hoje. Estão a bater à porta. Quem será?
«Mário?»
«Sei que tentaste ligar-me, mas precisei de pensar um pouco.»
«Querias enlouquecer-me? Mas ainda bem que chegaste... Tenho algo a confessar-te, é melhor entrares.»
«O teu pai não está em casa?»
«Não, já saiu para o restaurante. Vamos para o meu quarto.»
«Sei o que vais dizer, prefiro ser eu a falar do assunto.»
«Não, deixa-me falar! Eu sinto necessidade de falar! Eu já sei que tu sabes...»
«Sim, é verdade. Eu consegui sentir isso, quando estivemos juntos pela última vez, anteontem. Senti que já sabias, o teu silêncio e o teu olhar disseram tudo...»
«Eu também senti que tu já sabias, que eu sabia. Ficámos calados... Não tenho conseguido pensar noutra coisa, estou tão triste... Dás-me o teu abraço?»
«Desculpa-me, eu sei que errei.»
«Tu? Erraste? Não! Tu não! Fui eu que errei! Sou egoísta. Deveria amar-te melhor. Mário gosto muito de ti... amo-te... »
«Eu também te amo muito... meu amor...»
«Deveria ter tido forças para contrariar o meu pai, os meus instintos, e não tenho! Não valho nada...»
«Não chores... Sabes que não suporto ver ninguém chorar!»
«Deixa-me chorar! Eu odeio-o! Odeio-o por não conseguir odiá-lo!»
«Vá, acalma-te... Eu estou aqui...»
«Não me deixes!... Nunca pensei dizer uma coisa destas! Mas, não me deixes... Não me deixes Mário... Pelos menos neste momento...»
«Eu não quero deixar-te, amo-te tanto Helena... Tanto! Se tu soubesses.... O que aconteceu entre mim e o Filipe foi apenas...»
«O quê?»
O conto Hoje serviu de ponto de partida para o romance de dia e de noite.
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